Ele, o fim

Noite. O canto ressoa, entre tropeços.
Perambula terra a fora, entoando a velha canção:
"Marujo bom, marujo ao mar, marujo em terra, em braços de mulher..."
Na memória, tempos idos.
No coração... que coração? Já não tem mais.
Corujas piam e espiam a figura esguia entre névoas.
"Skish, skish, skish". Os sapatos velhos duetam com o chão de pedra polida.
O branco embaçou o azul dos olhos.
Logo não vai mais poder cantar. Não vai mais poder andar.
Ele é só um defunto, esquecido.
Anda de lado a outro na noite, quando ninguém o vê.
Os ossos falam na língua da dor.
Lembra-se ainda do velho barco, que espera nalgum porto.
Ao longo, janelinhas amarelas, com luzes e calor.
Gente cantando. Gente brigando. Gente ignorando.
O Sol vai nascer e ele voltará para o túmulo.
A garganta ressequida aguarda (em vão!) o rum.
O mar foi sua casa, onde queria ter morrido.
Morreu em boteco. Foi arrastado pra cova rasa.
Acordou um dia, depois do porre, apodrecendo.
Faz sua última reza antes de dormir.
O dia vai raiar e trazer o vuco vuco de gente, que sonha futuros.
Ele entende. Ele, o fim.

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