“Só desejo uma coisa: conservar até o fim dos meus dias com toda a integridade o dom, para mim sagrado, da indignação! A forte atração pelo fantástico é um defeito capital do meu ser, a tranquilidade me aborrece.” Mikhail Bakunin

domingo, 15 de maio de 2016

A mão amada

Sentiu pousar delicadamente a mão em seu ombro esquerdo. E amou-a.
Amou-a tão profundamente como o amante ama a amada, diante da morte certa, na guerra sangrenta.
A mão em seu ombro esquerdo, tão leve, tão delicada, tão gentil, fê-lo sentir-se amado também.
E imaginou destinos idílicos, sensações impensadas até então, beijos longos e deliciosos.
Fria, a mão também - de fato - o amou, naquele instante de poucos segundos.
Como pode amor tão forte nascer de toque tão leve?
"Só pode ser amor de verdade", pensou ele, que não amara nenhuma moça do vilarejo distante, nem da cidade de agora.
Um veleiro no Atlântico, vislumbrava o rapaz, seria testemunha única das paixões desses dois querentes. Ele, o veleiro fino e longo, e o céu azul, por testemunhas. Mais ninguém.
Viveriam de quê? Que importava?, pergunta tola, no real fundada.
Aquele instante era o início de tudo, aquele toque sutil, de amada que acorda o amante no leito nupcial.
Então virou-se. E viu.
A mão da Ceifeira, longa, branca e delicada, chamava o rapaz, cedo, para o fim inevitável.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Ele, o fim

Noite. O canto ressoa, entre tropeços.
Perambula terra a fora, entoando a velha canção:
"Marujo bom, marujo ao mar, marujo em terra, em braços de mulher..."
Na memória, tempos idos.
No coração... que coração? Já não tem mais.
Corujas piam e espiam a figura esguia entre névoas.
"Skish, skish, skish". Os sapatos velhos duetam com o chão de pedra polida.
O branco embaçou o azul dos olhos.
Logo não vai mais poder cantar. Não vai mais poder andar.
Ele é só um defunto, esquecido.
Anda de lado a outro na noite, quando ninguém o vê.
Os ossos falam na língua da dor.
Lembra-se ainda do velho barco, que espera nalgum porto.
Ao longo, janelinhas amarelas, com luzes e calor.
Gente cantando. Gente brigando. Gente ignorando.
O Sol vai nascer e ele voltará para o túmulo.
A garganta ressequida aguarda (em vão!) o rum.
O mar foi sua casa, onde queria ter morrido.
Morreu em boteco. Foi arrastado pra cova rasa.
Acordou um dia, depois do porre, apodrecendo.
Faz sua última reza antes de dormir.
O dia vai raiar e trazer o vuco vuco de gente, que sonha futuros.
Ele entende. Ele, o fim.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Sós

Reprimendas! Dão-nos às mãos cheias!
É isso o que temos todo o tempo.
Não palavras fáceis, de literal gozo.
Mas reprimendas.
Que fazem sentir-nos fracos,
alcoolizados. Químicos.
Reprimendas.
E assim nos sentimos,
vis e humanos.
Sentimo-nos enfim,
sós.

Velho Marujo

Dentro, bem dentro daquela farda bate um coração apressado.
O pano é bom, mas ordinário. Nada excepcional.
Abotoaduras de plástico, uma condecoração aqui, outra ali. "Por bravura", repete.
Mas o coração queria mesmo era voltar.
Da praia, o mais bonito era o navio de guerra. Da guerra, o mais bonito era a calmaria. Mas agora era apenas um comerciante. Bêbado.
O vento burila uns fios soltos da velha e carcomida farda de guerra, que já viu sangue. "Meu e de outros".
Desce mais rum goela abaixo. Arrota e tropeça nas botas velhas.
No porto, mulher lhe faz gesto e desiste, vendo o desinteresse do velho fardado.
O coração partiu para as bandas de lá. Queria voltar mas nunca chegou ao porto sonhado. Encontrou outro no lugar.
Aquele coração apressado carrega um mar inteiro de angústias, que não cabem mais no porto de agora.
Em terra, o velho marujo é menos homem. No mar era velho lobo combatente útil.
Enfia a mão na algibeira. Caça moeda. Joga pros guris, correm pra um lado, ele claudica pra outro.
E caminha, rumo à morte certa. Não será essa noite. Outra talvez.
Sobe as longas escadas que do porto conduzem à Luz Vermelha. Bordel de madame Lia.
Lia em seu colo afaga o cabelo ralo do velho soldado marujo. Desde a infância juntos. Mais irmãos que amantes.
E ele dorme. Alcança o antigo porto. O coração apressado agradece o regalo do sonho. Lia chora ao ver o velho ressonar. Crianças de novo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pequeno coração, amor

Mataria Ele. Assim que Ele passasse novamente em sua frente.
Não. Dessa vez ela não O perdoaria. Uma cretinice dessas não se perdoa, nem em mil anos, nem em mil corações rasgados.
Posou delicada a mão sobre a coxa. Entre elas um vestido de chita, baratinho baratinho. Sob o sol outonal.
Pensou em tudo o que já havia lido em sua vida. Escândalos. Como se submetiam a Ele? Por que a poesia e a prosa Lhe rendiam tantos tributos?
Estavam certas as tragédias gregas. Os romancezinhos comerciais de hoje mentiam. Desconheciam a realidade. Literatura covarde.
Ela, tão nova!, já conhecia a verdade. "A verdade, viu?!"
Via claramente as coisas agora. E não entendia como acreditara N'Ele. E mais uma vez. E outra. E tantas outras. Mas agora...
Sentiu-se altiva. Dona de si e corajosa. Sacou do bolsinho mais um doce mantendo a concentração inalterada. Heroína de filme, atira pergunta depois. "Pou!". Morto.
Mas Ritinha viu toda sua certeza se esvair quando a adrenalina correu de novo em suas veias. Mais um Joãozinho passava em sua frente.
Mais um. O amor de novo lhe pregava uma peça.
Desarmada, cedeu.

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