Velho Marujo

Dentro, bem dentro daquela farda bate um coração apressado.
O pano é bom, mas ordinário. Nada excepcional.
Abotoaduras de plástico, uma condecoração aqui, outra ali. "Por bravura", repete.
Mas o coração queria mesmo era voltar.
Da praia, o mais bonito era o navio de guerra. Da guerra, o mais bonito era a calmaria. Mas agora era apenas um comerciante. Bêbado.
O vento burila uns fios soltos da velha e carcomida farda de guerra, que já viu sangue. "Meu e de outros".
Desce mais rum goela abaixo. Arrota e tropeça nas botas velhas.
No porto, mulher lhe faz gesto e desiste, vendo o desinteresse do velho fardado.
O coração partiu para as bandas de lá. Queria voltar mas nunca chegou ao porto sonhado. Encontrou outro no lugar.
Aquele coração apressado carrega um mar inteiro de angústias, que não cabem mais no porto de agora.
Em terra, o velho marujo é menos homem. No mar era velho lobo combatente útil.
Enfia a mão na algibeira. Caça moeda. Joga pros guris, correm pra um lado, ele claudica pra outro.
E caminha, rumo à morte certa. Não será essa noite. Outra talvez.
Sobe as longas escadas que do porto conduzem à Luz Vermelha. Bordel de madame Lia.
Lia em seu colo afaga o cabelo ralo do velho soldado marujo. Desde a infância juntos. Mais irmãos que amantes.
E ele dorme. Alcança o antigo porto. O coração apressado agradece o regalo do sonho. Lia chora ao ver o velho ressonar. Crianças de novo.

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