Jornamarkting: o futuro do jornalismo

Sou especialista em marketing digital, especialmente em inbound marketing. Sei escrever o que as pessoas querem ler, e fazer um post ter milhares de acessos. Tenho lido manifestações entusiasmadas de colegas da comunicação sobre o potencial do jornalismo para o inbound marketing.

E esse potencial é grande. Enorme. Contudo....

A cada dia mais, os veículos buscam (como sempre buscaram, na verdade) tratar dos assuntos de interesse dos leitores. Enquanto antes de "supunha" que tal coisa seria de interesse e passível de virar matéria, hoje se "sabe" o que é de interesse de fato. Em números.

Aí reside o problema.

A busca por quantidade de acessos pode direcionar os esforços de um veículo para cobrir justamente o que os leitores querem, o que eles acessam, enfim.

O Facebook é como uma enorme piscina de bolinhas, onde cada bolinha é a "bolha" em que as pessoas vivem. Cada bolha tem seus assuntos, seus temas de interesse, e "furar" o bloqueio da bolha e mostrar algo que seja importante, mas fora dos temas de interesse, é dificílimo.

A cada dia mais, as pessoas se informam pelo Facebook, Instagram e WhatsApp. Os veículos jornalísticos (e blogs de nicho, em especial) se desdobram em mil para fazer seus posts atingirem enorme quantidade de gente. Atingir muitas pessoas é o índice que mede o sucesso do veículo.

O que quero dizer é que há uma tendência dos veículos em tratar dos assuntos que penetrem com facilidade nas bolhas das redes sociais, viralizem e gerem recursos para eles (em anúncios, em cliques nos links de patrocinadores etc).

Nesse sentido, existe uma grande tendência de veículos ultraespecializados fazerem sucesso com nichos de público dispostos a pagar por acessar conteúdos de interesse prático (economia, relação mamãe-bebê, fitness, veículos etc).

O Google premia, com seu modelo de algoritmos, os sites/ blogs que consigam "ranquear" bem em seu sistema de pesquisa. Logo, veículos segmentados conseguem ser mais facilmente "encontrados" no Google.

Ou seja, tanto Google quanto Facebook/ Instagram querem entregar para seus públicos aquilo que é de interesse deles, praticamente penalizando o conteúdo que não é.

Quantas pessoas se interessam, por exemplo, em assuntos espinhosos como trabalho escravo? Quem vai tratar disso, se não um veículo tradicional (e desesperado para sobreviver) ou jornalistas/ ativistas militantes dessa causa?

Creio, cada vez mais, em jornalismo militante, feito por jornalistas que compreendem a importância da profissão e nadam contra a avalanche de dinheiro (dinheiro esse que chegam minguado em seus bolsos, convenhamos) que muitas vezes corre no sentido oposto.

Há uma enorme tendência no jornalismo atuar como marketing, para gerar receita, o que pode colocar em xeque o velho trabalho do jornalismo sério, de ser um defensor dos interesses sociais e humanos.

É fato que nunca ninguém leu, por vontade própria, algo totalmente alheio ao seu interesse. Mas se os Donos do Poder souberem que não há ninguém vigiando, a sociedade estará definitivamente vendida aos interesses escusos de pessoas e organizações interessadas em subjugar o ser humano.

A formação do bom jornalista, aquele que pode fazer a diferença real no futuro, passar por entender e estudar o ciberespaço para muito além de fazer postagens legais no Facebook, blogposts que ranqueiem no Google, e entender de métricas.

O futuro do jornalismo será um "jornamarketing". Mas haverá a resistência que entenderá de deep web, TOR, programação e, acima de tudo, de cidadania humana.

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