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Mostrando postagens de Julho, 2013

A construção de uma educação autêntica e significativa

Qual o papel destinado à filosofia no que diz respeito  à construção de uma educação autêntica e significativa? Para responder a essa questão, creio que seja fundamental discutir, antes, o que seria a própria autenticidade humana. Vejamos: o homem autêntico é aquele que vive éticamente o que ele é de fato, ou seja, não permite que outrém dite-lhe o que ser, de que forma ser, como se comportar, enfim, como se enquadrar no mundo moderno (é o sujeito cuja subjetividade não amolda-se simplesmente  ao dado, mas tem a capacidade de criar o novo).  Esse mundo moderno é o mundo do próprio capitalismo (vencido o escravismo, superado o feudalismo, eis que é o capitalismo que surge como forma produtiva da sociedade moderna, a estrutura que sustenta a superestrutura). O mundo moderno exige que o sujeito molde-se às forças produtivas do capital, que seja uma peça desse maquinário que move o que convencionamos chamar de sociedade humana moderna. Qual o espaço, hoje, destinado à filosofia e à própri…

Reflexões sobre educação

O conceito de Paideia, desenvolvido ao longo do tempo, decorreu da evolução do ideal educativo grego, em princípio contido no conceito de “Arete”, que designava a heroicidade (conjunto de qualidades físicas, espirituais e morais). Deu-se, no processo de desenvolvimento desse ideal educativo, uma expansão do conteúdo da “Arete”, passando a ser designado, então, como kaloskagathia, ou seja, além dos atributos da Arete, há a busca pela realização da beleza e da bondade.             Mas a evolução do ideal educativo levou o homem grego para além do desenvolvimento de sua individualidade: busca-se também o desenvolvimento do homem enquanto ser coletivo, que vive em um continente de relações pessoais e com sua cidade. Ou seja, não basta mais a educação formadora de individualidades, mas a formação de cidadãos, e isso não se dá apenas com o ensino da ginástica, da musica e da gramática.             Nas relações acima expostas, a justiça poderia ser (e com frequência era) vítima de potências…

Conceito de Paideia

Conceito de Paideia
Paideia Mas, se até então o objectivo fundamental da educação era a formação do homem individual como kaloskagathos, a partir do século V a. C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixa de ser suficiente. É então que o ideal educativo grego aparece como Paideia, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão. Platão define Paideia da seguinte forma "(...) a essência de toda a verdadeira educação ou Paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento" (cit. in Jaeger, 1995: 147).
Fonte:http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/paideia/index.htm
1) Que elementos da educação grega antiga poderíamos destacar como interessantes para refletirmos sobre os ideais gregos de formação humana?  Desta…

Guia-me a Só a Razão

Guia-me a só a razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.

Tivesse quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.

Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
«Cego, fora eu bendito» ?

Como olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão —
Olhar de conhecer.

Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Matéria e Espírito - Almada Negreiros

Não vamos perder o domingo apenas com o Faustão, né? Um pouco de reflexão é essencial para a vida. Segue texto de Almada Negreiros para o "exercício intelectual nosso de cada dia".
Nós hoje estamos ao mesmo tempo na melhor época da humanidade e na pior. Tão depressa sentimos que tudo em nós e em redor marcha uníssono em frente, como subitamente um grande atrito emperra as nossas próprias articulações. Há ao mesmo tempo qualquer coisa que nos desacompanha e qualquer coisa que nos anima. Há caminhos inteiros que terminam súbito e não há caminho inteiro e vitalício. E nós desejamos francamente acertar com a direcção única e onde o único obstáculo seja de verdade o mistério do futuro.  Todo aquele que se lance mais animado pela palavra espírito, não creia que faz mais do que estar sujeito a uma determinante actual. A consciência material, como acontece hoje, dá entrada natural para o campo do espírito. Assim também o espírito tem existência vital segundo a qualidade de consciênci…

Divagações sobre Bourdieu

Bourdieu vê na escola um ambiente de reprodução e legitimação das desigualdades sociais. Ele inverte a perspectiva dominante de que é a escola uma instância democartizadora e transformadora da realidade social. Há no campo social os diversos valores culturais que, aceitos como únicos verdadeiros ou legítimos por cada grupo social, determinam as relações entre a pedagogia escolar e as próprias classes sociais dentro das quais se incluem cada um daqueles grupos. Como há uma classe dominante, ela impõe a todas as outras sua cultura como a legítima, e forma a cultura escolar à luz dessa sua própria cultura. A cultura escolar, contudo, é vista como neutra e universalmente legítima, e não como produto de uma cultura dominante. Assim sendo, ela é legitimada e aqueles grupos sociais cuja cultura diverge da cultura escolar (que na verdade é reprodução da cultura da classe dominante) sofrem com a incapacidade (ou dificuldade) de assimilar como legitimamente sua a cultura escolar (uma vez que e…

De Fernando Pessoa

A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.

“A ciência como vocação”, de Max Weber

Para Max Weber, o mundo sofreu, com o advento da racionalização, um processo de desencantamento: a ciência tornou-se oficialmente a explicadora e investigadora dos fenômenos, colocando as explicações mágicas como puras fantasias desprovidas de vínculo efetivo com a realidade. O homem moderno vive sob a luz do racionalismo, em um progresso explicativo-racional dos fenômenos mundanos em que a ciência é força propulsora. É um processo de dominação de todas as coisas pelo cálculo e por meios técnicos, um processo de dominação racional, teórica e prática do mundo natural. Como consequência, o próprio homem perdeu seu lugar privilegiado que ocupava quando do conceito de “Criação divina”, e passou a ser apenas um ser, no meio de milhares de outros seres que com ele disputam espaço. A dimensão mística, donde predominava a fé, perdeu espaço, com a ciência, como fonte explicadora do mundo. A fé foi transferida para a capacidade da ciência, em seu progresso, criar novas (embora provisórias) explic…

Sr. Brasil - o trabalho de um dos maiores divulgadores da cultura brasileira de todos os tempos

Rolando Boldrin é, na minha modesta opinião, o maior divulgador atual da moda caipira. Toda sua obra é um gigante depoimento à grandeza do sertão e à cultura sertaneja. Apresenta hoje o programa "Sr. Brasil", na TV Cultura. É engraçado ver como a moda caipira foi "evoluindo" (degenerando) para o que hoje conhecemos como "sertanojo". Viva Boldrin, cantor e ator que deve ser colocado no panteão dos maiores divulgadores da cultura brasileira.

A justiça nossa de cada dia

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Tapiraí: o gelo da serra desperdiçado

Na quarta-feira (24/07), a cidade de Tapiraí registrou temperaturas de até 3º. Um frio que não se via por essas bandas fazia tempo.
Tapiraí é rota para o litoral e para o sul do país. Centenas de caminhões e ônibus descem a chamada "Estrada da Anta" todos os meses, com destino a Santa Catarina, Paraná e BR 116.
O frio desses últimos dias tem lembrado o clima de anos atrás, quando o frio era ainda mais intenso na cidade do que tem sido nos últimos anos.
Ver água congelada no cocho de água dos cavalos e vacas, nos pastos, não era cena rara. Mas ultimamente tem sido.
O motivo os cientistas já sabem, embora os mega conglomerados empresariais façam questão de não saber: as mudanças climáticas globais.
A cidade é uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Brasil, mas a leniência do Poder Público local e Estadual está permitindo o avanço da silvicultura de forma desenfreada.
Onde há anos viam-se milhares de árvores nativas, hoje vemos milhares de pés de eucalipto australiano.
Outro pro…

Sorriso do canalha!

Sentiu dele a face fria.
Distante já ia a alma.
Desesperou-se, perdeu a calma.
O menino não mais ria.

A última lágrima caiu,
perdeu-se na carne pouca.
Chorou, ficou louca,
o magrelo filho partiu.

De fora do barraco político sorria,
deputado fazia troça,
ricaço ouvia a nova bossa,
burguês para o exterior partia.

A vida lhe pregara tantas peças...
Os 7 filhos pediam comida,
E essa era sua vida:
Tropeçar em cadáveres e promessas.

No barraco coberto de palha,
toda dor do universo cabia.
E o horror que ela sentia,
Brilhava no sorriso de um país canalha!

Pequena exposição sobre Max Weber

Max Weber foi um dos pensadores iniciais e sistematizadores do que hoje conhecemos por sociologia. É muito grande a sua contribuição para essa ciência, que busca explicar a sociedade e suas relações internas. Lançando conceitos que se tornaram a base da sociologia e o paradigma para novos investigadores, o pensador focou seu olhar em vários aspectos da sociedade. Alguns grandes temas aparecem em suas obras e orientam a visão daqueles que buscam entender as diferentes facetas da sociedade. Um desses frutíferos conceitos é o de ação social, que é caracterizada pela ação humana socialmente orientada, que retira seu sentido da coletividade em ação. Essa ação tem um sentido para aquele que a pratica. Carrega implícita, subjetivamente, o seu sentido. É uma ação aceita no meio social em que é praticada, com vistas a um objetivo ou ao menos posta em marcha por uma motivação. Não basta que uma ação seja coletiva para ser caracterizada como ação social. Ela deve, antes, ter sentido, ser ra…

Os traços marcantes e distintivos da estética

Para Platão, o belo é o bem, a verdade, a perfeição, existindo no mundo das ideias e independentemente do julgamento do homem sobre o que é ou deixa de ser belo. O mundo sensível, para Platão, é o resultado das imitações de um ideal concebido no mundo das ideias. Três são as hierarquias que miram essa dimensão ideal: O Demiurgo, que compôs o mundo imitando as formas verdadeiras e as formas imutáveis, o Legislador, e o artista. Este último, quando falha em seu conhecimento da realidade última, produz uma falsa imitação das ideias, gerando a fantastika. Quando guiado pela visão da educação que o filósofo possui, produz a eikastika, a imitação verdadeira do mundo das ideias. Diferentemente de Platão, Aristóteles concebe o belo como algo inerente ao homem, em uma clara oposição ao pensamento platônico: como pode a arte ser separada do mundo sensível, sendo ela uma produção eminentemente humana? Para Santo Agostinho e São Tomas de Aquino, assim como para Platão, o belo é identificado com o B…

Conceitos sobre autoria

Caros leitores, me atrevo a tentar definir alguns conceitos sobre autoria. Vejamos:
Autor medieval: baseado na noção de auctoritas, é a negação do autor presença. É onde os discursos giram no entorno do rótulo de autoridade. Não há expressão da subjetividade, mas representação (cópia) do afeto (algo externo).
Autor presença: o autor é o sujeito onisciente do discurso e causa absoluta dele. Ele sabe tudo o que vai acontecer e provoca cada aspecto do discurso com base na sua total ciência dos fatos. É a noção mais comum (senso comum) de autor e expressa fortemente a noção de autor no romantismo. Autor implicado: alter ego do autor empírico, criado e recriado em uma imagem-ideia durante a leitura do texto. Cada obra do mesmo autor aponta para um autor implicado diferente, em consonância com a especificidade de cada obra. Autor modelo: sujeito a quem o leitor atribui a seleção de estruturas sintáticas, de itens lexicais e de estratégias narrativas que servem de pistas para a interpretação do …

A relação entre arte e filosofia

Que relação podemos estabelecer entre arte e filosofia? A relação mais natural que podemos estabelecer é aquela que aponta que ambas, a arte e a filosofia, estão postas em patamares que se sobrepõe ao do senso comum, onde a filosofia questiona a arte e a arte questiona como se filosofia fosse. É claro que a estética, que julga o artístico e é disciplina da filosofia, é, por sí só, uma relação extremamente forte entre arte e filosofia. Mas creio que essa relação vai muito além da disciplina “estética”, e adentra os campos daquilo que envolve a arte sem ter a estética como motor principal. O caldo cultural por exemplo, no qual está imerso um objeto de arte (muito especialmente se for um readymade) é um campo fertilíssimo para que a filosofia deite seus olhos e questione a arte nesse caldo forjada. Eis aí a principal vinculação: a arte questionadora do mundo, e a filosofia questionadora da arte e do mundo no qual ela está imersa.

A FONTE de Marcel Duchamp

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Em que perspectiva a obra A FONTE de Marcel Duchamp pode ser considerada uma obra de arte? Creio que a obra A FONTE pode ser considerada uma obra de arte na perspectiva segundo a qual tratava-se de um objeto qualquer, vulgar, mero utensílio, que certamente passaria despercebido pelos olhos de qualquer pessoa caso tivesse sido mantido como objeto para fins utilitários, e foi alçado à uma categoria superior, provocando o raciocínio de observadores e mesmo confrontando (talvez aí esteja seu maior valor) os princípios consolidados utilizados para “medir” o que é ou deixa de ser arte. A colocação de tal objeto no patamar de obra de arte que carrega a perspectiva única do artista, independente do quão foi de fato trabalhado por ele (o artista); em um lugar incomum para sua natureza utilitária; sob um título provocador, é o que confere ao objeto a categoria de obra de arte. Pensemos no seguinte caso: uma televisão queima, deixa de funcionar, mas a última imagem que ela produziu ficou gravada…

Roda Viva - Chico Anysio

Chico Anysio pensou em ser deputado... um humorista deputado? "Eu acho que seria o 'ridículo' da Câmara. Mas não me importaria", disse ele nessa memorável entrevista ao Roda Viva. Hoje tem deputado humorista, jogador de futebol, cantor sertanejo, além, é claro, dos bandidos sem outra profissão que não a de parlamentar. Ainda bem que o cabra da peste não se meteu nesse meio. Mas vamos lá, assistam a esse vídeo do maior humorista que o Brasil já conheceu.

Hegel a a autolibertação

Hegel demonstrou o paradoxo entre o discurso da liberdade, presente no Iluminismo, e a prática da escravidão, que movimentou a economia de diversas nações ocidentais. A expansão da economia escrava levava, contraditoriamente, à expansão dos limites do discurso sobre a liberdade.

Hegel mostrou a dialética do senhor e do escravo: enquanto o senhor possui superabundância, e aparentemente sua essência é viver para si, o escravo possui carências, e sua essência, aparentemente, é viver em função de outro. Na verdade, o quadro é de profunda dependência do senhor em relação ao escravo, que é o criador da sua superabundância e, nem objeto nem coisa, é o sujeito transformador da natureza material.

Hegel defendia que a libertação do escravo não poderia ser uma “imposição” a ele, que escolheu a vida à liberdade, mas uma autolibertação, que o levaria a uma autoconsciência independente: sou livre no momento em que eu quiser, quando tomo consciência da minha liberdade. A liberdade de minha vontade c…

Hegel e o Espírito da História

Hegel buscou estabelecer o nexo que liga os diferentes tempos da história da filosofia, tendo em mente que o presente está ligado à existência histórica (somos e pensamos hoje por causa da tradição). Essa tradição está em movimento e evolui, consonante com as novas contribuições que lhe são feitas.

Sendo assim, filosofia é resultado da tradição que a precede, em pensamentos que evoluem voltando-se, contudo, para si mesmos. A filosofia não é religião, história política etc, ela é distinta disso. São múltiplas as filosofias, mas elas ligam-se essencialmente com a filosofia geral.

O objetivo de uma história da filosofia é fazer a história do pensamento que se volta para si, que a si próprio se reencontra; é abarcar o conjunto sem deixar o todo pela particularidade: compreender a relação entre as filosofias particulares e a filosofia geral. A filosofia surge quando surge o pensamento que se pensa a si mesmo.

A história da filosofia não é pura enunciação de opiniões, ou investigação erudit…

A Sua Verdadeira Realidade

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com "ele" na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O "homem" vai andando com as suas idéias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é — o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Democracia e Espionagem: até onde vamos?

O século XX foi marcado por profundas mudanças políticas, geradoras de guerras mundiais onde se mataram milhões de pessoas; de guerras em países periféricos, onde as potências econômicas estrangeiras, em especial aquelas ligadas à guerra, colocaram seus tentáculos para sugar o dinheiro que a guerra fornecia e consumia; de regimes sangrentos e assassinos, suportados, ao menos por um tempo, pelas potências econômicas e bélicas que posteriormente lhe fizeram frente.
Viu-se a violação de liberdades individuais; a tomada de decisões política unilaterais, geradoras de massacres pintados de “tentativa de democratização de povos oprimidos”. 
Viu-se a noção da filosofia política de “contrato social”, de cessão de direitos naturais em prol de um contrato jurídico que garantiria a liberdade civil de todos e a preservação da vida, sendo negado. Esse contrato social é o fundador da sociedade democrática. 
Nesse contexto, ganha força a noção de “estado de exceção”, onde o banimento e as medidas ex…

Abujamra declama Jorge Luís Borges

A relação entre política, liberdade e violência.

Para o desenvolvimento do presente texto, nos centramos na concepção de política, de liberdade e de violência para Hannah Arendt. Para ela, a política é sinônima de liberdade. Para a autora, a política só é possível na esfera pública.
Na Grécia antiga, havia uma clara separação entre a esfera privada (dominada pela ética) e a esfera pública (espaço dominado pela política). Os gregos se reconheciam como coletividade, o que permitia a eles trabalhar pelo bem comum. A noção de coletividade é diferente da noção de massa. A política seria justamente a relação entre os sujeitos da coletividade em prol do bem comum, do bem de todos.
A modernidade não possui mais a noção de esfera pública, e garantiu ao sujeito a perda da esfera privada: tudo se transformou em uma enorme ação de publicidade. A modernidade é uma relação entre individualidades, entre sujeitos que não são “eus autênticos”, não são autônomos, não são singulares. Não pensam o “nós” como coletividade: são apenas a relação de indiv…

Tejo: lembranças

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É pequeno e frágil o "corguinho" que circunda meu bairro, lá no sertão. O bairro cujo nome pouquíssimas pessoas já ouviram. Ele carrega em suas águas todas as minhas lembranças mais doces e mais amargas. Em suas águas, de tempos em tempos, vejo o tempo passar e deixar suas marcas em mim. O corguinho não se importa com o tempo, ele está sempre lá. E comigo.
Toda vez que o vejo, que o sinto, me lembro desse belíssimo poema de Pessoa. Nenhum toca mais a alma do exilado quanto esse pequeno poema...
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,  Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
O Tejo tem grandes navios  E navega nele ainda,  Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, A memória das naus. O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso porque pertence a menos…

Olha, violência não!!

Peço perdão aos pacifistas, mas algumas coisas só são conseguidas no tapa!

Ética normativa e a questão da eutanásia

Partimos, nesse texto, de uma análise do filme “Mar Adentro”, onde o protagonista, Ramón Sampedro, passa seu drama. Ele vive uma vida considerada por ele indigna, posto que ele perdeu os movimentos do corpo e vive, hoje, em estado de paralisia física, preso a uma cama e dependente dos outros para conseguir realizar mesmo as ações mais básicas e simples que um ser humano, com todas as suas capacidade motoras funcionando, é capaz de realizar. Ele tem o desejo de morrer. E como simplesmente não pode apertar um botão e “se desligar” da sua vida, ele depende da ajuda de outrem e, mais do que isso, da permissão do Estado, da lei, para que a eutanásia possa ser levada a cabo. Ele luta na justiça pelo direito de decidir sobre a própria vida. Ele é um sujeito completamente lúcido. Tem sua mente sob total controle. Além disso, é inteligentíssimo. Ocorre que há uma barreira legal para a realização da eutanásia: a lei, a norma legal, não permite que a prática seja levada a cabo. Instaura-se a questã…

Mário Sérgio Cortella - A Postura Ideal do Professor

Compartilho com vocês o vídeo do grande professor e um dos maiores expoentes da Filosofia da Educação do Brasil na atualidade, prof. Mário Sérgio Cortella. Sei que muitos preferem a exibição dele no Programa do Jô - o Grande Falastrão - mas a palestra dele é muito boa aqui também.
Bom programa para o domingão.

"Rubem Alves, o professor de espantos"

Assisti esse documentário sobre o mestre Rubem Alves no início do ano. Garanto que para aqueles que apreciam o trabalho deste educador, vale, e muito, o tempo empregado para assisti-lo. O título do vídeo, "Rubem Alves, o professor de espantos", é bastante indicativo do conteúdo que será exibido. Bom documentário para vocês.

Nietzsche

Para reflexão: "Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito".

Loucos e Santos, de Oscar Wilde, por Abujamra

"A normalidade é uma ilusão imbecil e estéril" - Wilde

Opinião

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Opinião

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A maldição das drogas: paralisia Estatal

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Se combate o narcotráfico com ações policiais, mas não se investe em armamento e treinamento adequado. Mulheres e crianças são empurradas para o crime, sob as bênção da insanidade.
De Norte a Sul do Brasil, em zonas densamente povoadas, a máquina do tráfico age à luz do dia, aliciando jovens e mulheres, pessoas que, por sua própria natureza, são frágeis: as crianças e jovens transformam-se em soldados do tráfico; as mulheres, em vítimas do poderio das quadrilhas.
Impulsionados pelo desejo de consumir produtos de grife, sair da miséria em que vivem ou da violência do lar, menores se entregam às promessas da “riqueza” fácil, por meio da venda de drogas, abençoados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Criado para proteger os vulneráveis, o ECA acabou invulnerabilizando os infratores, garantindo “penalidades” ridiculamente leves.
Já a condescendência do Estado para com os criminosos, permitindo visitas íntimas nos presídios, dá de bandeja a cabeça das mulheres para o tráfico: ali, a…

Manifestações populares: qual rumo tomar?

Uma onda de manifestações contra “tudo o que está errado” vem varrendo o país nos últimos dias. Não há dúvidas de que vem sendo a maior movimentação popular política espontânea, desde o movimento “Diretas Já” (que lutava pelo voto direto, popular e democrático), que já ocorreu no Brasil.
O levante das massas não é à toa. Escorrem pelo subsolo do país, há centenas de anos, toda sorte de sujeira que seres humanos podem imaginar e, pior, realizar. Corrupção, falta de competência administrativa, distribuição desigual de riquezas, pouco investimento público em saúde, educação e segurança, são exemplos que fermentam há décadas no estômago do brasileiro.
Claro que o resultado de tantos desmandos, cedo ou tarde, seria o levante revoltoso de um dos povos mais pacíficos do mundo, que saiu às ruas para protestar contra tudo.
Mas o problema de tiro que não tem destino certo é acertar o alvo errado, e centenas de vândalos acabaram se infiltrando nesses movimentos e depredando patrimônio público …

MP dos Portos: entranhas à mostra

Mais uma vez, os impasses gerados no interior do governo demonstram que o sistema político atual funciona à base de negociações, que não são conhecidas pelo cidadão comum.

Uma batalha pela votação da MP dos Portos, considerada essencial para haver uma modernização no setor portuário brasileiro, um dos mais lentos, morosos e onerosos do mundo, colocou as entranhas do atual sistema de governo para fora. Desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1995, o país é, via de regra, governando à base de Medidas Provisórias.

No governo FHC, as votações sobre matérias importantíssimas para a nação demoravam. Arrastavam-se por um tempo impossível de ser esperado. Solução? Aplicar uma Medida Provisória, colocando o tema à frente de outros importantes temas a serem apreciados pelos congressistas e travando as votações no Congresso. A MP, que tem prioridade sobre outras matérias em sua tramitação, acabava sendo um porto seguro para o andamento das ações do Executivo Federal.

O P…