Hegel e o Espírito da História

Hegel buscou estabelecer o nexo que liga os diferentes tempos da história da filosofia, tendo em mente que o presente está ligado à existência histórica (somos e pensamos hoje por causa da tradição). Essa tradição está em movimento e evolui, consonante com as novas contribuições que lhe são feitas.

Sendo assim, filosofia é resultado da tradição que a precede, em pensamentos que evoluem voltando-se, contudo, para si mesmos. A filosofia não é religião, história política etc, ela é distinta disso. São múltiplas as filosofias, mas elas ligam-se essencialmente com a filosofia geral.

O objetivo de uma história da filosofia é fazer a história do pensamento que se volta para si, que a si próprio se reencontra; é abarcar o conjunto sem deixar o todo pela particularidade: compreender a relação entre as filosofias particulares e a filosofia geral. A filosofia surge quando surge o pensamento que se pensa a si mesmo.

A história da filosofia não é pura enunciação de opiniões, ou investigação erudita, nem mesmo investigação das ideias especiais de todos os autores. A história da filosofia deve por em movimento a minha livre razão pensante.

É tarefa da filosofia demonstrar que a verdade e a ideia consiste em um universal que é em si o particular, o determinado. A filosofia conduz ao concreto, enquanto o simples exercício intelectual conduz ao abstrato.

O concreto é simples e diverso (entendido como a diversidade das filosofias particulares por meio das quais se vai compondo a filosofia geral). Esta contradição interna produz o desenvolvimento. A filosofia por si é o conhecimento desse desenvolvimento, e como pensamento é ela esse desenvolvimento pensante. O progresso desse desenvolvimento leva a uma perfeição cada vez maior da filosofia.

O desenvolvimento do concreto se dá pela sucessão de sistemas de filosofia na história e no seu conceito lógico. Ao estudar a história da filosofia, se estuda a própria filosofia. A filosofia se manifesta historicamente, mas não apenas como acúmulo, e sim como desenvolvimento lógico.

O conjunto da história da filosofia é um progresso necessário e sucessivo, racional e determinado a priori de sua ideia. A multiplicidade de filosofias é necessária à filosofia geral.

Hegel parte da posição de que o presente da filosofia é mais rico do que o seu passado, uma vez que ele o contém, pois se trata da evolução dos diversos pensamentos que, em seu próprio tempo presente e particular, satisfizeram as necessidades desse tempo, que agora é passado.

Sendo assim, a filosofia busca satisfazer as necessidades de seu tempo particular, que não podem ser satisfeitos com “filosofias de tempos idos”. Quando a filosofia de algum “tempo passado” revive, ela se torna apenas um período transitório para um novo sistema de pensamento e um novo filosofar, próprio do tempo atual.
O movimento de introdução à filosofia ocorre no estudo das filosofias particulares e na produção concomitante de pensamento filosófico. A investigação da tradição filosófica é momento essencial para a posterior criação de novos conteúdos em filosofia. Aprende-se a filosofar com a investigação da tradição.

É importante salientar que a forma particular de uma filosofia é sincrônica com a constituição particular do povo, suas instituições, hábitos e preferências.

Para Hegel, a filosofia só pode florescer onde há liberdade, posto que ela é uma atividade livre, não egoísta e que necessita do desaparecimento das angústias e necessidades. Para produzir filosofia, deve o espírito estar livre de suas necessidades básicas, econômicas, de sobrevivências.

O ocidente é o local privilegiado para o desenvolvimento da filosofia, posto ele ser o espaço onde se ergue a liberdade e a autoconsciência, desaparece a consciência natural e o espírito desce dentro de si próprio. O ser essencial do ocidente é a liberdade. Para Hegel, só há duas épocas na história da filosofia: a filosofia grega e a germânica.

Na história da filosofia, o sujeito deixa sua individualidade para ser o canal por onde passará e evoluirá a tradição.

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