Democracia e Espionagem: até onde vamos?

O século XX foi marcado por profundas mudanças políticas, geradoras de guerras mundiais onde se mataram milhões de pessoas; de guerras em países periféricos, onde as potências econômicas estrangeiras, em especial aquelas ligadas à guerra, colocaram seus tentáculos para sugar o dinheiro que a guerra fornecia e consumia; de regimes sangrentos e assassinos, suportados, ao menos por um tempo, pelas potências econômicas e bélicas que posteriormente lhe fizeram frente.

Viu-se a violação de liberdades individuais; a tomada de decisões política unilaterais, geradoras de massacres pintados de “tentativa de democratização de povos oprimidos”. 

Viu-se a noção da filosofia política de “contrato social”, de cessão de direitos naturais em prol de um contrato jurídico que garantiria a liberdade civil de todos e a preservação da vida, sendo negado. Esse contrato social é o fundador da sociedade democrática. 

Nesse contexto, ganha força a noção de “estado de exceção”, onde o banimento e as medidas excepcionais e provisórias ganham fôlego. Ou melhor, prevalecem sobre os direitos dados ao ser humano em um estado democrático.

O combate ao terrorismo (ao menos a ideia que se tentou propalar desse pretenso “combate”, narrado no filme Fahrenheit 9/11), é a “desculpa” para a instituição de um estado de exceção.

Ocorre que esse estado de exceção pode estar se tornando a regra, o paradigma político que rege a ação de Estados sobre os outros e em relação ao Estado com seus próprios cidadãos. Nessa dimensão, o estado de exceção chega mesmo a tomar uma forma aparentemente “legal”, na medida em que suas ações buscam, e encontram, apoio nos cidadãos do Estado.

Nas democracias modernas, a política é uma esfera de tomada de decisão que não aceita valores que não lhe sejam específicos, como a ética e a religião, e profundamente atrelada aos interesses econômicos. A política se tornou o espaço do conflito, não da busca pelo bem comum, mas pela tomada e manutenção do poder. Como critica Carl Schmitt, nas democracias, nos estados democráticos de direito, o poder fica dissimulado. É no estado de exceção que se conhece quem, de fato, detém o poder. É assim nas democracias modernas: quem detém de fato o poder? Esse sujeito, ou sujeitos, está escondido no meio de milhares de outros que pensam, ilusoriamente, que detém o poder.

É nesse contexto que a crítica do documentário “Fahrenheit 9/11” toma corpo. Ele critica, ou busca mostrar, as relações ocultas no discurso de levada de democracia e liberdade ao povo iraquiano, que moveram (juntamente com o discurso do medo) a massa de cidadãos dos EUA a apoiarem as intervenções militares no Iraque, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

O filme retrata as relações estabelecidas historicamente entre empresários americanos e sauditas dos setores petrolífero e armamentista, aliado aos interesses de Bush e demais membros do partido Republicano.
O povo americano e o sistema político democrático e tomador de decisão, em uníssono, apoiaram as intervenções militares dos EUA no Iraque, movidos por um discurso que buscava legitimar a guerra através do medo. 

A intenção era levar paz, democracia e liberdade ao Iraque? Livrar os EUA da possibilidade de novos atentados? Não, mas satisfazer os interesses econômicos postos em jogo naquela ocasião.
A guerra movimentou milhões e milhões de dólares, atacando uma nação que, defende o filme, jamais representou perigo para os EUA.

O filme faz saltar à mente questões como: há de fato democracia? Se há, ela atende aos interesses do povo? Ela é movida por uma política que busca o bem comum? Parece que todas essas questões levam a uma resposta: a democracia de hoje atende a interesses políticos figadalmente ligados ao sistema econômico, e é para o bem desse sistema que a democracia cede, gradativamente, espaço para o estado de exceção, apoiado pelo povo que renunciou a seus direitos naturais para ter proteção à vida e à liberdade civil, mas que tem, cada vez menos, essa liberdade.

Como estamos hoje, com um Estado que penetra todos os outros Estados por meio da mais inescrupulosa via da espionagem? Reflitamos.

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