Quantos likes vale a sua privacidade?

Poucas horas após implantar o sistema, a Urbes (Sorocaba) já multou mais de 30 motoristas infratores, por meio de videomonitoramento. As câmeras são potentes e conseguem gravar o que acontece dentro do carro em resolução altíssima.

A questão aqui poderia ser as multas. Mas não é. Está longe de ser, na verdade.

Não vou citar o clássico 1984, de George Orwell. Todo mundo conhece.

Fato é que vivemos em uma sociedade vigiada. Não só por câmeras cada vez mais espalhadas por todos os lados, mas por satélites com imagens de altíssima definição também (hoje usados para "vigiar" locais e pessoas específicas, ligadas ao terrorismo).

A Secretaria de Segurança Pública de SP está utilizando um software (na verdade, um sistema, o Detecta) que coleta imagens de câmeras do Governo do Estado, das concessionárias de rodovias e de dezenas de município, joga tudo em um enorme banco de dados e faz análises para identificar crimes. Está em fase de testes um sistema que, por meio do "espelhamento", utilizará também as câmeras de videomonitoramento de comércios, fábricas e até de residências.

Ou seja, o cidadão comum não dará um passo na rua sem estar monitorado pelo Estado, sem ter coletados seus dados, suas ações e ter um cruzamento de dados para verificar padrões de comportamento.

Se isso é bom para o sistema de segurança pública, é horrível em se pensando em privacidade do cidadão. Há garantias de fato de que tal sistema só será utilizado para detectar crimes? Se sim, quais seriam essas garantias? Se houver um regime supressor da democracia (uma ditadura, sempre possível na América Latina), como imaginar que esse sistema não será utilizado para "o mal"?

Mais acima eu falei em "padrões de comportamento". Hoje, os softwares são extremamente objetivos. Eles coletam padrões de comportamento e definem como a pessoa age e, assim, pode oferecer a ela elementos que ela irá querer. Busque em seu computador por um livro na Amazon, por exemplo. Ele passará a aparecer em links de outros sites, em páginas completamente alheias ao tema "livro" etc... Isso é marketing digital, uma espécie de vigilância "permitida" (por falta de regulamentação decente e de preocupação do próprio cidadão). Tal vigilância se dá no ambiente online, em prol do mercado (e apenas do mercado).

Vamos imaginar por um momento um futuro em que as câmeras captem gestos, ações e outros dados de uma pessoa, relativos ao comportamento, por alguns dias. Depois, vá cruzando isso. Talvez, em brevíssimo tempo, o sistema poderá oferecer um "perfil completo" do comportamento de um ser humano, seus padrões, em ambiente offline. Com isso, as empresas e Governos terão o perfil exato do comportamento do "cidadão-consumidor". Teremos a vigilância das subjetividades.

Entendo que os softwares hoje baseiam-se em objetividade, em padrões. Mas logo poderão entender de subjetividades. E então, estará acabada, por fim, a privacidade individual. E um passinho a mais já eliminará a liberdade também. E o anonimato.

Sou um defensor ferrenho da Democracia, da Cidadania e acredito piamente que um mundo melhor, mais justo e humano, passa pela via tecnológica.

Só tenho receio de ver como a vigilância em todos os ambientes está evoluindo sem a menor resistência do cidadão comum, que forma a grande massa de cidadãos do mundo. As pessoas estão dando seus dados aos montes, postando fotos, fazendo lives em suas casas e nas ruas etc. Ou seja, a velha conhecida "sociedade do espetáculo" está virando uma sociedade do espetáculo individual. Além disso, deixam incontáveis bits de informação em cada site que visitam.

O que estou dizendo pode soar apocalíptico para muitos, quase uma "teoria da conspiração". Não se trata disso. É apenas um alerta sobre o fato de estarmos dando tanta informação privada para sites e redes sociais, e fornecendo tanta informação aos governos (sob o manto de uma pretensa "melhor segurança").

Mesmo os mais "antitemeristas" concordam que vivemos em uma democracia. E mesmo dentro dessa democracia, o Governo usa o GEO-PR para monitoramento em grande escala (monitorar comunidades indígenas e quilombolas, assentamentos rurais, além de ONGs, mobilizações, greves e manifestações que ocorreram no país, segundo o The Intercept).

Como escapar de um Governo que poderá utilizar isso como ferramenta de inteligência para repressão política?

O Quartz divulgou uma reportagem revelando que o Google usou uma tecnologia no Android para armazenar dados de localização do usuário, mesmo se o GPS do aparelho estiver desligado (utilizam as antenas das operadoras para fazer a triangulação do smartphone). No começo de 2017, a Google atualizou o sistema operacional para incorporar o número das torres — chamado de Cell ID pela empresa — nos telefones.

Para finalizar: o mais preocupante de tudo é que as pessoas estão de fato interessadas em popularidade na net, fazendo de tudo para um like, enquanto o sistema de vigilância de espalha por todos os cantos.

Será que abrir mão da privacidade e da possibilidade de anonimato é uma ideia tão boa assim?

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