As mil histórias da Víbora

Resenha (A milésima segunda noite da avenida paulista)


Livro traz coletânea de textos do escritor e jornalista Joel Silveira

É difícil encontrar livros onde o jornalismo e a literatura co-habitam tão harmoniosamente quanto em A milésima segunda noite da Avenida Paulista (Companhia das Letras, 213 págs., R$ 38,50), do jornalista e escritor Joel Silveira. Trata-se de uma ótima coletânea de reportagens, perfis e entrevistas estruturadas e escritas nos moldes do mais refinado Jornalismo Literário Brasileiro.

Mais do que isso, é o retrato de uma época em que a víbora – apelido que Joel ganhou de Assis Chateaubriand, o poderoso dono dos Diários Associados, de quem foi correspondente na Segunda Guerra Mundial – conviveu com intelectuais e artistas brilhantes, hoje lembrados e reconhecidos por suas obras. Conheceu alguns até intimamente, como o pintor Di Cavalcanti, que ajudou Joel a bisbilhotar a vida da sociedade paulistana, bisbilhotices que lhe permitiram escrever a reportagem que abre o livro, “Grã-finos em São Paulo”, para a revista Diretrizes, semanário de Samuel Wainer. A reportagem – um relato debochado sobre a sociedade de paulistanos “quatrocentões” e industriais emergentes, vivendo em um mundo de glamour, à parte daquele que estava em guerra (1943) – obteve grande sucesso e transformou-se em marco.

A reportagem que dá nome ao livro (A milésima segunda noite da Avenida Paulista), trata do casamento de Filly Matarazzo, filha do conde Francisco Matarazzo Jr. Destacado para cobrir o evento, Joel narra todo o período de preparação do mais pomposo casamento acontecido até então no Brasil, sonho da alta sociedade paulistana. Desaforadamente, foi publicada ao lado da cobertura do casamento de dois operários das indústrias Matarazzo. O relato transborda no melhor estilo “cinematográfico” do New Journalism.

Quando se detém a traçar o perfil de Di Cavalcanti, o jornalista revela a alegria, o contador de histórias, o poeta que havia no pintor; juntamente com as agonias e angústias do homem que “em praticamente 60 anos de pintura (...) jamais deixou de pintar um só dia”.

Joel reconstitui, em determinados momentos, a vida de seu perfilado por meio de reprodução de trechos de cartas. É assim que faz com Graciliano Ramos, autor de São Bernardo e com quem Joel conviveu de perto e quem, em seu dizer, “é o único escritor brasileiro, ao lado de Machado de Assis, digno de carregar esse título!”.

Em outros momentos, a víbora vasculha em livros e textos de outros autores informações para traçar perfis, como o de Monteiro Lobato (o melhor perfil do livro). Nele, o leitor é levado a quase tatear a obra do autor de Urupês e Cidades Mortas.

Em outro trecho do livro, Joel conta como a entrevista com Lobato, que deveria circular em torno da literatura, migrou para a área da política. Com o título “O governo deve sair do povo como a fumaça da fogueira!”, frase proferida por Lobato, a reportagem causou furor no meio político, e as conseqüências foram o exílio de Samuel Wainer, o fechamento de Diretrizes e a fuga de Joel para sua cidade natal, Lagarto, em Sergipe.

O jornalista faz desfilar sob os olhos do leitor a vida, conquistas, confidências e frustrações de pessoas como o poeta João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Agripino Grieco, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade e o controverso Gilberto Freyre.

Mas o leitor não precisa temer que essa seja mais uma obra composta por um apanhado de memórias de um velho jornalista que, enfadonhamente, tenta nos convencer de que “aqueles sim, é que eram bons tempos”. O adjetivo “nostálgico” deve passar longe desse livro, cujo texto refinado, sutil, irônico e inteligente, equilibra habilmente jornalismo e literatura. Em momento algum o jornalista desaparece em detrimento do escritor, produzindo textos excessivamente rebuscados, muito menos deixa o jornalista tomar conta de todo o terreno, escrevendo textos chatos ou relatoriais.

Falta ao livro, entretanto, um texto que trate do período em que Joel foi correspondente de guerra durante a Segunda Grande Guerra, pois faz apenas minúsculas menções sobre o período, o que deixa uma sensação de que “falta algo” ao final da obra.

Como não traz informações claras sobre o ano em que alguns perfis e entrevistas foram escritos, o livro pode deixar o leitor perdido no tempo, já que contém textos escritos em diferentes épocas. O livro traz, no posfácio de Fernando Morais, um perfil do autor.

Joel oferece ao leitor um saboroso pedaço da história, que vai sendo degustado aos poucos e só é devidamente deglutido quando se chega à última linha de cada texto. É um livro para quem quer mergulhar na aventura da reportagem... e do texto.


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