Conto enviado para a Piauí

Caros e assíduos leitores: posto aqui o texto que enviei à revista piauí, mas que não foi publicado por ela. Comentem... (logo postarei mais dois que foram enviados para a revista, como prova que, assim como vocês freqüentam este blogue esperando alguma postagem boa que nunca chega, eu também jamais desisto...):

Ela saiu de fininho e deixou os bobões pra lá

O poderoso Jorge sentava-se à cabeceira da mesa. Na extremidade oposta estava Jorginho, pretendente de Alícia Jorge Alphonsus. Jorginho Pé-duro tremia. Era medroso. Metido naquele fraque de corte italiano, ele parecia uma fuinha disfarçada de pingüim. Sua cara comprida lhe dava ares de roedor, e seus olhinhos apertados e lacrimejantes o tornavam ainda mais ridículo. Mas ele tinha um dom, como todo Pé-duro: era brilhante orador. Era a quinta geração de leiloeiros Pé-duro.

Jorge Alphonsus tinha o dom da falsificação. Falsificava brilhantemente de tudo. De colares a quadros, de medalhas a queijos suíços. Era o quarto da geração que herdava esse dom. Certa vez falsificou uma micro-ogiva nuclear utilizando apenas farinha de trigo, gasolina e cuspe. Fê-la tão real que os compradores (ela foi vendida no mercado negro pelo pai do Jorginho em questão) conseguiram vaporizar uma plantação de pepinos.

As famílias trabalhavam em conjunto. O mecanismo era simples: os Alphonsus falsificavam relíquias e os Pé-duros as leiloavam como preciosidades. Assim viveram quatro gerações de Alphonsus e Pé-duros. Todos Jorges e Jorginhos. Todos orgulhosos de seus dons. Na sociedade dos trambiqueiros, os falsários (que são artistas) são de casta superior aos leiloeiros (que são “serviçais”). Afinal, um falsário tem lado: o crime. Já um leiloeiro pilantra veste-se de honras para esconder suas vergonhas.

Mas a família Alphonsus estava fadada a desaparecer. Jorge só conseguira ter Alícia que, além de mulher, não herdara dom algum. Conformado, Jorge sonhou casá-la com um grande falsário. Os pretendentes eram muitos, mas péssimos. O último da lista apareceu com o que dizia ser sua obra-prima: um medalhão de Napoleão. Além da figura do medalhão aparecer de corpo inteiro (inadmissível para um general de 1,50m), as inscrições do verso misturavam francês com espanhol mal-escrito. Não serviria, portanto. Jorge preferia um de sua casta. Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários, mas não restava alternativa a Jorge senão casar Alícia com Jorginho Pé-duro, trambiqueiro respeitado.

O jantar estava para ser servido, e Jorginho pediria oficialmente a mão de Alícia. Jorge baforava seu charuto e olhava com desdém para Jorginho que, de tão nervoso, mascava as uvas do enfeite da mesa, sem perceber que eram de cera. Alícia riu com a cena ridícula. Passou as mãos pelo pescoço e levantou as madeixas, deixando nua a bela nuca. Ela odiava a idéia de se casar com aquela fuinha patética. Outra pessoa lhe povoava os pensamentos. Não era um falsário. Nem leiloeiro.

Jorge propôs que o nome de seu futuro neto fosse “Jorge Alphonsus Neto”. A fuinha, ferida em seu brio, protestou: “Ele se chamará Jorginho Pé-duro Jr”. A confusão armou-se. Altos brados eram dados.

Ninguém percebeu a saída de Alícia. Enquanto discutiam, ela seguia na garupa da moto de sua paixão, a artista plástica Ana. Elas adotariam um garoto, e o chamariam de Pedro. Só.


Obs.: o concurso da Piauí exige que encaixemos uma frase como a acima destacada dentro de um texto com cabeça, membros e pé. Dêem uma passada no sítio da revista e confira os outros textos. Abraço.

Comentários

Renata Miloni disse…
André, gostaria de te fazer um convite. Não sei se o e-mail no teu perfil é válido, por isso peço que me escreva, por favor.
renatamiloni arroba revistamalagueta ponto com
Abraços!

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