Conto: Os bigodes de Seu José

Seu José nasceu dia 25 de um ano qualquer e num mês que não vem ao caso. Último filho de uma prole de seis (todos homens), desde seu nascimento Seu José chamava a atenção pela sua cabeleira. Jamais havia sido noticiado o nascimento de um bebê mais cabeludo.

Aos seis meses, um de seus irmãos, o mais sapeca, lhe fez uma trança enorme. A mãe e o pai de Seu José ficaram furiosos com o menino, e disseram que ele não cortaria o cabelo pelos próximos cinco anos. Na verdade, esse castigo não foi muito duro para ele, já que possuía uma enorme tendência a ser careca.

Seu José foi crescendo. Os cabelos eram semanalmente cortados, e aos nove anos jurava que já despontava, sobre o seu lábio superior, um impenetrável bigode.

Os anos passaram, os cabelos cresciam irritantemente. Mas a barba não vinha. Nem o bigode. A cena era tão estranha que Seu José, aos 30 anos, ainda não havia feito a barba uma única vez, e seu rosto mostrava apenas umas penugens.

É bem verdade que Seu José ficava irritado com o crescimento dos cabelos, mas desejava ardentemente ostentar um bigodão. “Será o maior do mundo”, jurava ele. Bem, mas o bigode jamais veio.

Triste com seu destino e com seu apelido (chamavam-no de Zé-cabelo-sem-barba) Seu José abandonou a carreira promissora de cabeleireiro e, maquiavelicamente, passou a se dedicar a desnudar faces de suas barbas. Tornou-se o mais bem-sucedido barbeiro do mundo todo, e sentia-se vingado do cruel destino.

Com 37 anos, Seu José possuía um rosto angelical. Diziam que tinha feições de príncipe, com um rosto jamais tocado por uma lâmina de barbear. Arrumava muitas mulheres. Era rico e famoso, mas triste. Sentia que faltava algo.

Todos afirmavam que era a falta do bigode. As mais românticas juravam que lhe faltava, na verdade, um amor que lhe completasse. “O homem só é completo quando encontra sua cara-metade”, diziam as apaixonadas e belas moças solteiras (e as más línguas apontavam algumas casadas nesse meio).

Seu José desacreditava de uma versão e de outra. Tomado por uma lógica simples, decidiu raspar a cabeça. “Desprovido de minha densa cabeleira, os fiapos de meu rosto sobressairão”, pensava.

Certo dia, o careca Seu José fazia barbas alucinadamente para o dia dos namorados. Todos queriam ter seus rostos raspados pela talentosa lâmina de Seu José. Era um dia de grande recompensa para ele, e de vingança contra os mais bigodudos. Se um freguês dizia querer fazer somente a barba e deixar o bigode intocado, Seu José dava um jeito de errar o corte e obrigar o cliente a arrancar o vasto bigode também.

Nesse dia, já cansado de tantas barbas, Seu José recebeu a visita, no final do expediente, de dona Maria, a mais solteira das solteiras da cidade. Ela, envergonhada, queria um favor de Seu José. Dirigiu-se a ele como faria a um padre, pedindo absoluto sigilo. Ele jamais a havia visto, pois ela era também a mais reclusa das reclusas da cidade. Trazia um lindo lenço português cobrindo o rosto, à moda de uma dançarina do ventre.

“Seu José, sei que o Senhor está cansado, mas quero pedir-lhe um favor. Não conte a ninguém que estive aqui. Tenho 40 anos, e jamais arranjei um homem que me quisesse. Quero um milagre de São Antônio agora. Mas tenho que ajudar o santo, também. Fiz uma promessa para arranjar marido. Mas sei que será impossível com meu terrível defeito. Olhe”. Dona Maria tirou o lenço do rosto. Um vasto bigode reluziu, em negro cor de graúna, nos olhos de Seu José. Foi uma paixão fulminante.

Ele negou-se a arrancar aquela preciosidade, e convenceu Maria que aquilo era uma dádiva. Ela, por sua vez, se apaixonou pelo rosto intocado por lâminas de Seu José. Ambos encontraram, naquela noite e naquela barbearia, suas caras-metades. Casaram-se, e tiveram lindos filhos. Todos homens, calvos e bigodudos.

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