Conto: Um ouvido atento

Anos da mais absoluta dedicação ao ócio o deixaram com aquela aparência. Pousa a latinha de cerveja na barriga, que ganhou alguns centímetros na nova posição (a preferida dele): semideitado na poltrona do apartamento 110. É a única mobília da casa. Alguns furos deixam escapar um pouco do material do estofamento. Ninguém liga.

Com pálpebras semicerradas, assiste aos mais recentes acontecimentos do mundo pela televisão. Uma senhora chora. Sob a imagem, a legenda: vítima!

A massa amorfa filosofa: “E não somos todos?” “Não senhor, seu Pedro, não senhor!” “Como não, uai?” “Não sendo, seu Pedro, não sendo”!

Leva a lata à boca. Dá uma golada e acaba com o líquido. Joga a lata para debaixo da janela. Ele gosta do cheiro que a cerveja solta com o sol que a evapora. Estica o braço e abre a porta da geladeira que agora só serve de armário, pois há anos não gela mais. Pega outra latinha. Abre. Bebe.

A mesma vítima de antes reaparece na tela, chorando ainda. Na verdade, se fosse outra, seu Pedro não teria percebido diferença; para ele, não há diferença entre os humanos. Todos sofrem. Porque querem. Porque gostam. E se todos os seres humanos são vítimas sofredoras, qual a diferença entre eles? O grau de sofrimento? “Bobagem!, é tudo igual.” diz seu Pedro. Mais cerveja.

Lá fora, gente com pressa. Gente praticando esporte para não morrer como seu Pedro está morrendo. E seu Pedro morre! Uma juriti canta. Ninguém ouve, já que o mundo anda tão surdo.

Seu Pedro poderia ter escutado o canto da juriti, mas morreu antes.

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