Manuel Castells e a Galáxia da Internet

Caros leitores, segue uma resenha sobre o livro "A galáxia da Internet", de Manuel Castells. Embora o livro do sociólogo seja "antigo" (foi publicado em 2001, o que, para os padrões da atualidade, é uma eternidade) possibilita ao leitor uma nova visão sobre economia e sociedade em rede.


Boa leitura!


Resenha:

Manuel Castells fornece um novo panorama global das relações entre indivíduos, empresas e países. Centrado na Internet como espinha dorsal dessas novas relações, o autor redesenha a sociedade, a economia e a interação humana, onde até o sentido de realidade e mediação podem ser questionados, já que se torna muito difícil definir o que é realidade e o que é mediação, ambas passadas num mundo virtual onde "as coisas acontecem", onde se dão as trocas de informação e se criam as próprias informações, essas que constituem esse novo mundo. Cada vez mais autônomo, esse novo mundo virtual ganha existência enquanto realidade; ele é real, e o que se passa nele também. Dessa forma, uma decisão econômica, por exemplo, tomada por diversos atores humanos (onde a Internet é o meio de interação, de mediação entre eles), é vigorosamente influenciada por informações criadas a partir da própria Internet, por meio de softwares que indicam os melhores investimentos a serem feitos. A Internet se torna mesmo um "ator" influente nesse processo de "tomada de decisão" dos humanos. Ela é veículo de mediação entre atores e também um ator (definitivamente, nesse processo, a idéia de "simulacro do real" é descartada; a idéia de mediação é tomada e ultrapassada. A mediação do real – se é que se pode falar em mediação - se torna a própria realidade).


Como novo ator na sociedade, a Internet impacta em todos os setores, e torna-se o centro das tomadas de decisão realmente importantes. Nesse processo, conforme Castells sublinha, nascem diversos desafios, que urgem serem enfrentados. O fato de a Internet ser um campo de incontáveis oportunidades e de inegável liberdade, abriga dentro de si a possibilidade (já manifesta, diga-se) de conflito entre o sonho da sociedade (conforme Castells) e seu lado sombrio.


Dento dessa sociedade de rede que se desenha, a Internet, como campo e fator de liberdade, pode "libertar os poderosos para oprimir os desinformados" (2001, p.225). Para escapar desse domínio, o indivíduo deve agir sobre si mesmo, "defender-se". Mas é difícil aceitar a própria idéia de domínio, já que ela pressupõe controle, e o controle, na Internet, é quase impossível. Fora da Internet, a vida pessoal também parece "descontrolada". Cite-se a percepção de alguns indivíduos de que "perdem o controle de suas vidas, de seu tempo, por causa de um ritmo cada vez mais acelerado, rumando ao desconhecido". De acordo com a idéia de Castells, é precisamente aos desafios não correspondidos a que se deve parte do receio dos indivíduos.


O primeiro desafio é a própria liberdade, já que as redes podem ter donos (aí entra a idéia de domínio). O acesso à rede fica controlado por esses "donos", criando um ambiente de luta pela liberdade na net, já que ela torna-se parte da infra-estrutura da vida humana e profissional.


O segundo desafio é a exclusão (ser excluído é ser condenado à marginalidade).


Para Castells, o terceiro e maior desafio é a nova educação, adequada para incluir e formar o indivíduo, tornando-o capaz de se autoprogramar, gerar conhecimentos e saber utilizá-los. Deve ser implantado um novo modelo de ensino, que forme o indivíduo para ter capacidade autônoma para aprender e pensar.


Um novo desafio é a organização empresarial de rede. Ela impacta diretamente nas relações de trabalho dos trabalhadores; entra em xeque, então, o bem-estar social. Novas organizações, compromissos e contratos devem ser criados. E a luta para isso não é descartada.


Emerge nesse processo uma nova economia. Juntamente com ela, vem a dificuldade de regulação, por parte dos governos, de transações comerciais. A organização do comércio modificou-se, e o fluxo de capital transacionado em alta velocidade torna as regulações por parte de órgão internacionais nas transações entre empresas de diversos países algo caótico. Em contraponto, a própria tecnologia cria mecanismos razoáveis para essa regulação.


No final de 2006 e início de 2007, os governos de todo o mundo passaram a olhar as questões ecológicas com mais "boa vontade", devido aos estudos realizados, cujos resultados apontaram um panorama altamente negativo para a economia, que vinha (e vem) se desenvolvendo com alta exploração dos recursos naturais. Embora Castells tenha publicado seu livro em 2001, ele traz uma observação interessante: "Se incluirmos no mesmo modelo de crescimento a metade da população do planeta que está excluída atualmente, o modelo de produção e consumo industrial que criamos não é ecologicamente sustentável". Ao mesmo tempo que a Internet torna-se uma fonte difusão de idéias entre ambientalistas preocupados com o desequilíbrio ecológico e a população em geral, ela pode também ser um recurso para redefinir o modelo de crescimento econômico, construindo estratégias de desenvolvimento sustentável e inclusão da parcela da população nessa nova economia. Os estudos sobre o impacto humano na degradação ambiental parecem ter mobilizado efetivamente os governos no sentido de melhor utilização de recursos naturais. A Internet parece ser um veículo de interação entre sociedade e ecologistas, com um impacto potencial muito grande no sentido de fiscalização das ações dos governos no trato das questões ambientais.


A evolução da tecnologia coloca o ser humano frente a um problema: de um lado, o superdesenvolvimento tecnológico. De outro, o subdesenvolvimento institucional e social. Bill Joy, um dos inventores da tecnologia de conexão de computadores em rede, fez um pronunciamento que alertava para o perigo desse desenvolvimento tecnológico desenfreado. Para Vernor Vinge, cientista considerado um "mago" das novas tecnologias, o importante nesse desenvolvimento tecnológico é a base moral sobre a qual ele se dá. Ela protegeria o homem contra um "levante" das máquinas.


Para Castells, o desafio mais fundamental é a ausência de atores e instituições capazes e dispostos a enfrentarem esses desafios. Tais atores somos nós. É toda a sociedade.

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