O operário em construção

Entre vitórias e derrotas, o operariado fabril vai fazendo sua história. E a história dos seus direitos


Qualquer um que passasse nas imediações do Ginásio Municipal de Esportes de Sorocaba, em 30 de março de 1980, saberia que lá dentro não acontecia um torneio esportivo. Somente as vozes que se revezavam ao microfone chegavam aos ouvidos dos curiosos do lado de fora, embora o ginásio estivesse abarrotado. Eram operários que acompanhavam a assembléia dos metalúrgicos. Ao final do encontro, os braços cruzados denunciavam a resolução: greve, uma das maiores acontecidas na região.

Vivia-se em plena ditadura militar. Os grandes jornais da cidade mantinham-se calados. Mas o acontecimento estampou a capa do jornal alternativo “Sorocaba Urgente”, do jornalista Júlio César Gonçalves. Um tapa na cara da censura, dos censores e de todos aqueles que acreditavam que os benefícios do desenvolvimento da “Manchester Paulista” eram igualmente desfrutados por todos - patrões, empregados fabris e população em geral.

Essa greve não foi um evento isolado. Seguia, como tantas outras, o exemplo das grandes paralisações do ABC Paulista. Dezenas de milhares de operários cruzavam os braços por todo o Estado, reivindicando aumento de salário e redução da jornada de trabalho.

As dificuldades de negociação com os patrões tiveram início desde que o trabalhador decidiu, pela primeira vez, cruzar os braços em sinal de insatisfação. A época da ditadura marcou apenas mais um momento dessa dificuldade. A repressão violenta às greves ocorrida nesse período não era novidade. “Se pensar bem, a repressão ainda não acabou”, afirma Luiz Roberto Coirin, ex-metalúrgico do ABC. “Ainda hoje, quando se vai fazer uma greve, fazer um ato, a empresa chama a polícia. Dizem que é para garantir o direito de ir e vir”.

Sorocaba conheceu relativamente cedo o que são as greves operárias. No início do seu desenvolvimento fabril, com a implantação da indústria têxtil, o sorocabano viu emergir uma nova espécie de trabalhador, do tipo que não via a luz do sol. A ausência de leis trabalhistas levava operários em todo o Brasil a jornadas de trabalhado de até 14 horas diárias para homens, mulheres e crianças. A situação começou a mudar após 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), implantada por Getúlio Vargas, que instituiu o salário mínimo, a jornada de trabalho de oito horas diárias, as férias remuneradas e a carteira de trabalhado.

No entanto, nas décadas de 1960 e 1970, os operários sorocabanos continuavam a sentir o peso do descumprimento da lei. “Os trabalhadores eram submetidos a condições tais de trabalho dentro das fábricas que as chamávamos de ‘campos de concentração’, fazendo alusão ao nazi-fascismo”, relembra João dos Santos Pereira, ex-operário têxtil e ex-vereador de Sorocaba. “A pior de todas era a Santa Rosália (prédio onde atualmente está localizado o hipermercado Extra), empresa têxtil onde trabalhei junto com outros 1.500 operários. Era um verdadeiro feudo, com leis próprias e rígida disciplina. O bairro Santa Rosália tinha uma delegacia responsável pelo o que acontecia no bairro e dentro da fábrica. Qualquer falha dentro da empresa, você era obrigado a passar o dia na delegacia. Os bebedouros da fábrica fediam, e nos banheiros, ratos e baratas ficavam a espera dos detritos das latrinas. Um companheiro nosso foi ferido no testículo por um roedor, e precisou levar pontos”, relata Pereira.

A jornalista Fernanda Ikedo afirma em seu livro “Ditadura e Repressão em Sorocaba” (Lei de Incentivo a Cultura, 2003), que o delegado Francisco Severino Duarte prendeu cerca de 20 líderes sindicais em 3 de abril de 1964, dias após o golpe de Estado, tidos como possíveis empecilhos para o regime militar que reprimiria a sociedade brasileira por quase 21 anos.


O momento Bolinha

As greves em plena ditadura militar representavam um momento particularmente difícil para o trabalhador. Membro da pastoral operária, Santo Dias, líder do movimento metalúrgico que em 30 de outubro de 1979 saiu às ruas da zona sul de São Paulo reivindicando um reajuste salarial de 83%, foi uma das vítimas da repressão. Aos 37 anos, durante a passeata, levou um tiro do policial Herculano Leonel, e morreu. Dias liderava o movimento de oposição dentro do sindicato, que permanecia omisso sob a presidência de Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, apoiado pelos militares.

O mesmo sindicalismo “pelego”, desígnio dado aos líderes sindicais com propensões patronais, atuava no Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba que representava, no final dos anos 70, a maior força sindical existente na cidade. Uma das lutas do operariado nesse período era expulsar os líderes “pelegos”, geralmente colocados ali pelos empresários por representarem a certeza de que o sindicato se manteria omisso frente aos anseios dos trabalhadores.

O jogo virou a favor dos operários quando, em 1983, o ex-metalúrgico Wilson Fernando da Silva, o Bolinha, venceu as eleições para presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba. Wilson Bolinha é ex-companheiro de Luís Inácio Lula da Silva. Trabalharam juntos na Villares, em São Bernardo do Campo.

No final dos anos 70, Lula era diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, onde organizou as grandes greves metalúrgicas de 1979, ano em que foram realizadas cerca de 400 greves no ABC paulista, inspirando a classe operária de todo o Brasil. “Você sabe o que é olhar para cima e ver helicópteros com metralhadoras apontando para você, enquanto você luta por seus direitos?”, indaga Luiz Roberto Coirin, referindo-se as concentrações de operários no Estádio da Vila Euclides, onde Lula pronunciava seus discursos.

Uma “aura maldita” acompanhava os líderes de movimentos grevistas ou os operários mais politizados, e os impedia de conseguirem novos empregos, caso demitidos. “Bolinha foi ‘cassado’, não arrumava mais emprego”, relembra Geraldo Titotto. “O ABC teve esse papel: no momento que ‘jogaram no ventilador’, foi militante preparado para todo o lugar. E ao invés de enfraquecer o ABC, que continuou com sua estrutura sindical, a saída desses companheiros criou vários focos irradiadores de novas políticas”, aponta.

Titotto chama a eleição de Bolinha de “retomada do sindicato”. “Na prática foi isso: um grupo de pessoas que veio do ABC se juntou com o que existia aqui de oposição, se constituiu enquanto chapa, montou um projeto político e foi eleito, aí o sindicato passa a ser trabalhado de uma outra forma. Até 83, esse sindicato não tinha identidade com o trabalhador”, salienta.

A eleição de Bolinha representou o fim da visão patronal dentro do sindicato. Hoje, a escolha de líderes se dá no “chão da fábrica”, ou seja, pelos próprios operários. “Você não escolhe ser dirigente sindical”, relata Alex Fogaça Camargo, jovem metalúrgico e diretor de comitê sindical. “Você é apontado e escolhido pelos peões da fábrica, como eu fui”, orgulha-se.

“Quando você se torna dirigente de sindicato, deixa de ser um simples operário e passa a representar o operariado”, reforça o experiente Coirin.

Os momentos de crise

No auge do milagre econômico da década de 70, sob comando do General Emílio Garrastazu Médici, o então Ministro da Fazenda, Delfin Netto, disse “é preciso esperar o bolo crescer, para depois repartir”. Delfin não informou, entretanto, quais eram os ingredientes desse bolo.

A receita era simples: uma boa dose de irresponsabilidade, regada a grossa incompetência administrativa e cavalares doses de megalomania. Esse bolo foi repartido durante as décadas de 80 e 90, e toda a população brasileira precisou engolir cada pedaço dessa amarga iguaria.

De acordo com o Cientista Político Ricardo Coltro Antunes, um relatório-denúncia do Banco Mundial disparou o gatilho para que explodissem as manifestações de 1978 e 1979 em fábricas e sindicatos, reivindicando a reposição dos salários. O arrocho salarial ao qual trabalhadores brasileiros vinham sendo submetidos em fins de 1977 somou-se às denúncias do Banco Central de que o governo havia roubado e manipulado importantes parcelas do salário real dos operários. Antunes aponta que, só no ano de 1973, foi diminuído em 30% o índice de aumento salarial. Era hora do operariado dizer chega.

Esse tiro acabaria por levar, em 2002, um operário à Presidência da República. Lula, principal líder sindical da época, inspirou a fundação do Partido dos Trabalhadores, no ano de 1979. As grandes greves de 1978 / 79 também foram responsáveis por lançar bases para a concretização de um antigo sonho dos operários: a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), fundada em 1983.

João Batista Figueiredo, último ditador do regime militar, deixou a Presidência da República em 1985 com índices de inflação que batiam na casa dos 223%. Em 1985, assume a Presidência o vice de Tancredo Neves, José Sarney. Em 1988, a crise da inflação atingia patamares inimagináveis, fechando o ano em 1.037,56%, somando-se a isso o desaparecimento dos produtos alimentícios do mercado e demissões em massa de trabalhadores. Essas eram algumas das fatias do bolo herdado da ditadura militar.

O desemprego crescente levou os sindicatos a sofrerem grandes derrotas. Trabalhadores aceitavam o chamado “Acordo Japonês”, que cortava parte das horas trabalhadas e em igual porcentagem, parte dos salários do trabalhador. O método era utilizado para estancar as demissões em períodos de crise no Japão.

Nos anos 90, o Plano Real, que ajudou a eleger Fernando Henrique Cardoso, em 1994, marcou a derrota da inflação, mas amargou com oito milhões de desempregados.

A entrada no século XXI, com o ex-metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores à frente do comando brasileiro, inicia-se um trabalho voltado para o desenvolvimento da economia e do setor social.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, filiado à CUT, também elegeu deputados e vereadores pelo PT. Exemplo disso é Arnaud Pereira (vereador) e Hamilton Pereira (Deputado), ambos com passagem pelo sindicato de Sorocaba.


Uma nova concepção de Sindicato

A pergunta do repórter desfez o ar burocrático da conversa e deixou eufórico o ex-metalúrgico Luiz Roberto Coirin:

- O senhor já participou de greve?

Ajeitou o disciplinado óculos, que até então não havia se movido um milímetro no rosto cansado de tantos embates. Deu um sorriso entre sarcástico e irônico, e começou:

- Se já? Vixi! Já acampei em porta de fábrica aqui em Sorocaba, para lutar junto com os companheiros da ZF, por exemplo. Foi em 98, quando mandaram um monte de gente embora. Dos 30 dias que durou a greve, fiquei 15. No ABC, participei da primeira greve de 1977, que durou algumas horas. Participei da greve de 79, que durou 15 dias e envolveu toda a classe metalúrgica. Mas a maior, para mim, foi em 1980, quando eu trabalhava na Volkswagen e fui o último a voltar para o meu setor naquele período, após 41 dias de greve. Isso antes de eu ser membro de comissão de fábrica.

Coirin pertence à leva de metalúrgicos sindicalistas que saíram do ABC paulista e vieram para Sorocaba, dando novo fôlego à atuação do sindicato. Ele atua na formação política do operariado sorocabano, no que chamam hoje de “Sindicato Cidadão”, uma nova concepção de sindicalismo que começou a ser implantada na cidade em 1992, sob comando de Carlos Roberto de Gáspari, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba. O primeiro passo foi formar profissional e politicamente os operários, com cursos do próprio sindicato ou de convênios, como o do Serviço Social da Indústria (Sesi), com vários cursos profissionalizantes.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, Isídio de Brito Correia, ressalta que “a reunião dos trabalhadores em sindicatos é essencial para mostrar a força e união da classe”.

“A história do sindicato jamais esteve desligada do contexto em geral. Quando o movimento socialista estava em alta, você percebia bandeiras, reivindicações deste sindicato que refletiam o momento”, explica Geraldo Titotto. “O sindicato cidadão reflete um novo momento, em que o sindicato não é o limite. O trabalhador precisa ter qualidade de vida no bairro, na sociedade, enfim, o sindicato precisa ir além”.

Para Coirin, o sindicato deixa de se preocupar exclusivamente com o trabalhador no “chão de fábrica” e passa a se ocupar do trabalhador em seu ambiente familiar, em sua comunidade, avivando discussões sobre política, cidadania, lazer, meio-ambiente, educação e cultura. “O sindicato não deixa suas atribuições tradicionais de lado, mas incorpora a elas propostas como a do Natal Sem Fome, lançada pelo Betinho no Rio de Janeiro, em 1994”, exemplifica Coirin. Um dos reflexos dessa ação foi o auxílio na criação do Banco de Alimentos de Sorocaba, instalado dentro do Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). Outra ação do novo sindicato foi a proposta de criação do Centro de Estudos e Apoio ao Desenvolvimento, Emprego e Cidadania (Ceadec), que atua, por exemplo, na organização dos catadores de material reciclável de Sorocaba, auxiliando também na criação da Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso).

O desenvolvimento da tecnologia de produção foi acompanhado por um desenvolvimento do operariado, inclusive no campo político. Resta saber se, dentro de pouco tempo, cruzar os braços em sinal de insatisfação será suficiente. Os sindicatos acreditam que não.


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