Um humano

“Estou eu aqui mais uma vez. Não é a primeira vez. Já fiz isso antes, mas nunca como agora. Nunca senti algo como agora. Mesmo que me olhem assim, com nojo, sinto-me feliz. Profundamente feliz. Porque esses que me olham sabem que são como eu. Sempre foram, sempre serão. Têm a podridão humana dentro de si, mas não assumem. Quem, podendo, não faria o que fiz? Quem, podendo, não sentiria o profundo prazer que senti ao liberar meu instinto humano, em toda a sua glória e alcance e fúria? Todos querem, mas têm medo. Medo...”. Ele tinha razão quanto a sentirem nojo dele. Afinal, todos sabem que o humano caminha para a libertação de seu estado animalesco. Mas e se ele estiver certo? Não, é claro que não está. Todos o olham como se ele fosse um animal, não-humano. Um demônio. Lábios finos, olhos faiscantes, língua muito branca para ser de vivo, lambe os beiços. Sorri, enquanto relembra sua façanha, à espera da decisão do delegado. Ele espera não ser preso. E sua não-prisão comprovará a tese da podridão humana. Justamente o que ele quer! A não-prisão não significa liberdade. Não liberdade física. Sim, libertará sua alma da dúvida. A certeza de que ele está certo será seu triunfo maior. Ninguém ali o quer preso. Todos o querem morto! Candidatos não faltariam. O delegado repassa o caso mentalmente, e decide. Ainda não existem provas de que prenderam aquele “homem”. Nenhum registro, rastro ou testemunha. De humano, apenas o cadáver, meio apodrecido, via a cena. Ainda havia uma alma dentro daquela carne podre, mas não conseguia mais falar, gritar, pensar. Apenas via. Via. Dentro em breve o desprezível demônio à frente do delegado será encarcerado. Não será morto, afinal. O delegado dá a ordem contrária aos desejos de todos na salinha envolta pela escuridão da madrugada. E sorri, contemplando os louros da glória. Da sua glória, e da bondade e justiça humanas. Aquela prisão veio a calhar. Seus crimes serão esquecidos. Ninguém será capaz de questioná-lo. Não se questiona um justo.

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