Guerreiro-menino

A voz do "Guerreiro" ainda era firme, mas o placar já ia longe. Um lance que ninguém esperava abriu o marcador: "a bola foi lançada de muito longe, e jamais teria chegado aonde chegou não fosse o vento tê-la empurrado!", assegurou um "especialista" na arquibancada. O fato decorreu assim:

A poucos metros do meio de campo, antes de passar para o lado adversário, o jogador lançou a bola. Mais para se livrar dela do que esperando uma jogada concreta, é bem verdade. E a redonda foi abraçar o peito do atacante, lá no cantinho, que aceitou o abraço e colocou-a, vagarosamente, no chão. Com a ponta da chuteira, empurrou a bola para as redes, que a aceitaram a contra-gosto.

O goleiro esmurrou o chão. Esse era apenas o primeiro e, de tão fantástico, empurrou o time para frente, que agora já estava a cinco gols de diferença do adversário. Um horizonte inalcançável de distância.

Mas o "Guerreiro" se mantinha fiel, em pé, quase cuspindo os pulmões. Ainda dava ordens: "avança, recua, ataca, defende". Ninguém mais ouvia. Todos os companheiros queriam apenas sair daquele campo.

Os olhos do "Guerreiro", marejando, se encontraram com os olhos do pequeno torcedor impotente, que chorava compulsivamente na arquibancada. O campo era quase uma várzea, e o jogo nada valia. Mas para o "Guerreiro" e para o torcedor aquele jogo representava tudo. Tudo e mais um pouco.

Não se tratava unicamente de um jogo. Para o "Guerreiro", era uma chance de ascensão. Para o torcedor, uma forma de esquecer os dias sombrios que passava em casa, mais encolhido do que esticado, mais chorando do que sorrindo, mais quieto do que falante e agitado.

Ao acabar o jogo, o "Guerreiro" deixou o time por outro, maior.

Ao acabar o jogo, o moleque chorão voltou para casa. Mas sem o sorriso que sempre trazia no rosto depois do jogo, no qual o "Guerreiro" havia estraçalhado o adversário. Ao acabar o jogo, o garoto não esperou pela próxima partida. O time não teria mais o "Guerreiro". O time não tinha mais o moleque torcedor. Naquela partida, o time ganhou mais um hiato nos seus quadros: o sorriso do moleque, que ninguém jamais havia percebido.

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