A solidão desesperada

De repente ele estava ali, a pagar o preço de uma sociedade partida em duas. Ou eram todos os outros que pagavam esse preço? Bem, certo é que ele estava sozinho e solitário (constrangido, diga-se. Ou orgulhoso?). E algum motivo escondido gritava por se mostrar. O ônibus era praticamente uma célula, uma bolha que também dividia o mundo em dois: lá fora, um calor insuportável; dentro, a mais aprazível das temperaturas. Mesmo sendo assim, dentro do ônibus, e à revelia dos passageiros, se mostrava a grande tragédia manifestada fora dele: o Poder que nunca se sabe a quem pertence ou quem defende de fato. O Poder que se coloca de um lado, e nem sempre o que tem a razão. Ou ter razão é uma questão de deter poder, afinal? A brancura da pele ou a grife da roupa é mostra de, e passaporte para, o Poder? Bem, divagações... O solitário policial encarnava naquele assento a grande fissura de nossa sociedade, o medo que impregna a vida do cidadão que não consegue construir a própria cidadania ou participar dela (falta da roupa de grife?). O policial solitário, que encarna a imagem da Lei, é o mesmo que provoca pulsações de medo na senhora idosa que teme andar na rua sozinha, ou explosões de ira no jovem desrespeitado. A solidão do policial solitário não é outra coisa que não a manifestação, inconsciente, do grosso muro que corta e divide, implacável, a sociedade brasileira em duas: a dos favorecidos pela Lei (detentores do poder), e os não-favorecidos (não é demais falar em desfavorecidos, afinal) por ela. Quem é o policial, enfim? Alguém que também sofreu as mazelas de uma infância pobre, que hoje encarna a imagem da autoridade e do autoritário, do bem e do mal. A mesma autoridade que jamais se sabe para qual lado irá pender, qual lado irá defender. O policial solitário, ao lado do assento (o único vazio do ônibus) que mete medo, sofre. Quem sentaria com ele? Quem dividiria o espaço que, em algum momento, está reservado para a própria morte? Em uma sociedade dividida, partida, o policial também é alvo: não só do medo dos comuns cidadãos, mas também de uma bandidagem que vê nele a encarnação de uma Lei, a mesma que, contraditoriamente, ele representa como sendo o elo mais fraco da corrente que termina em uma Corte de magistrados que defendem o próprio umbigo (o poder que conquistaram). Até a solidão que acompanha o policial se sentiria constrangida. Mas os detentores do Poder nada sentem. É a tragédia de uma realidade. A nossa realidade.

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