"A sociedade espionada" ou "O imaginário cidadão corrompido" - ou ainda "O perigo que subjaz a uma boa idéia"

"Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem" - Winston Smith ("1984", George Orwell)
Dia desses ouvi um apresentador da tevê Record a apoiar a instalação de câmeras por todas as ruas do país, como forma de coibir as ações de criminosos. Pode ser só mania de perseguição ou de conspiração (confesso: para mim, querem mesmo é escravizar a humanidade), mas acho que o motivo disso se deve mais à pavimentação de uma estrada que possa servir à dominação e vigilância do cidadão do que para protege-lo de fato. A cidadania existe, quando existe liberdade. A liberdade de sair às ruas e não temer assaltos e tiros na nuca. Para isso, devemos ter a ação policial a coibir os crimes (antes disso, a ação do Estado para diminuir o aparecimento de criminosos), e não a gravação de tudo o que se passa nas ruas, afinal, tenho o direito de andar por elas sem um "olho mecânico" a filmar meus passos.
Está tão disseminada a visão de que as filmadoras instaladas em postes pode aumentar a segurança, que ninguém parece se lembrar dos primeiros momentos em que a população foi contra esse sistema de vigilância. A Mídia tem, entretanto, mostrado ufanisticamente a ação dessas câmeras, exaltando-as inclusive. Noutro dia, mostraram um sistema espião desses a vigiar se pedestres passavam ou não pela faixa destinada a eles, e como se portavam os carros nas ruas. Caso algo estivesse errado, um policial, do outro lado do alto-falante, passava um "pito" no sujeito que cometia a falha. "Bacana, né?", dizem alguns de nós, sem perceber que passar pela faixa ou dirigir corretamente o carro é obrigação do cidadão, ações que devem estar incrustadas em nossa mentalidade, e não na voz eletrônica que nos vigia.
Bem, vamos lá, vamos para a Teoria da Conspiração: muito embora tenhamos em mente que o sistema democrático é o melhor sistema de governo (para alguns, outros suspiram de saudades da ditadura militar e seus assassinos), devemos ter em mente também que esse sistema é tão frágil quanto é sua imagem na mentalidade coletiva da sociedade. Se, por algum motivo (no caso, a perspectiva do fim da violência), a sociedade aceita sem resistência um sistema que permite que ela seja vigiada, mesmo ante a possibilidade desse sistema se voltar contra ela, é porque algo está tão errado que merece ser veementemente questionado. Afinal, por que instalar um sistema espião (que, dizem, será útil para a polícia provar que um indivíduo cometeu o crime pelo qual é acusado), que vigia a todos indiscriminadamente, como forma de combater uma criminalidade que não é prevenida pelo Estado? Seria uma forma de minar a resistência da sociedade a esse sistema (taí: o sujeito que assim teoriza é doido, não?), que pode voltar-se contra ela como forma de dominação?
Nosso imaginário coletivo está tão lotado de ameaças que não vemos o óbvio: mesmo diante de todas as boas intenções (se é que elas existem - duvido) do Estado e das autoridades, um sistema assim pode voltar-se contra as liberdades de pensamento e ação do cidadão (do cidadão, e não dos bandidos), a ponto de uma greve, ou manifestação, não conseguir ser levada a cabo, pois o Espaço Público está completamente vigiado.
Vamos a um exemplo em um quadro futuro, já com a democracia nos moldes que os ditadorezinhos enrustidos querem: tenho um amigo anarquista (ok, tenho tendências anarquistas, mas vamos imaginar que só as tem o meu amigo). Saio de minha casa com o objetivo de visita-lo. Ele (a Fiesp bem o sabe), não é um sujeito muito bem quisto pelas empresas. Então, eu, que trabalho em uma determinada empresa e não sou anarquista (bem, eles ainda não saberiam que tenho tais tendências, se as tenho de fato), entro na lista de sujeitos também malvistos pelas empresas, um potencial agitador (e com certeza a Fiesp teria meu nome em suas listas, passado pelo Sistema que tenta "manter a ordem social"). No dia seguinte à visita a meu amigo, quando chego à empresa para trabalhar, sou sumariamente demitido, com a desculpa de que teria cometido o crime de esquecer o copinho de plástico no qual tomei café sobre a mesa, e não jogado-o no lixo. Se, por ventura, novos direitos do trabalhador forem atacados, as empresas não terão os agitadores para atrapalha-las. Muitos outros exemplos são possíveis. Manifestações contra ações predatórias ao meio ambiente seriam prontamente abafadas, passeatas jamais seriam novamente possíveis (a borrachada comeria solta) etc.
Esse é o quadro de uma situação a qual não acredito nem um pouco absurda. Estamos em uma sociedade e sistema político tão longe dela ser possível, afinal? Não, absolutamente. Veja-se a passividade com a qual sociedade responde frente a possibilidade de ter câmeras vigiando a tudo e a todos. Estamos de fato convencidos de que as câmeras são necessárias, ou só não ligamos para isso? Ou não vemos afinal o perigo que nos ronda? Penso que a literatura pode nos responder. Lamentavelmente, a história também. Afinal, após a neurose socialmente produzida, nascem as ditaduras como remédio milagroso.
Não se preocupe (de preferência, não pense), o grande irmão zela por ti

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A relação entre arte e filosofia

A mão amada

O mito da caverna interpretado por Marilena Chauí