A tragédia escondida

A pequena área desmatada começou assim: o agricultor resolveu que determinada porção de mata ocupava uma área propícia para a plantação de leguminosas, cereais, raízes. Então, decidiu que precisava limpar a área e fazer a semeadura antes que a época de plantio passasse. Para limpar a área, ele precisava derrubar as árvores do local, mas isso não poderia ser percebido, sob risco de sanções e multas. Então, ele fez uma pequena plantação de bananeiras sob as árvores.

 

As bananeiras são plantas que resistem à sombra, embora nessas condições ela não produza grandes e comercializáveis frutos. Crescem, e esse crescimento é suficiente para permitir a retirada da mata sem que eventualmente satélites fotografem o desmatamento ou que a área pareça desnecessariamente desmatada aos olhos do Ibama ou Instituto Chico Mendes. Árvore por árvore é arrancada, em um processo que dura bastante tempo, se comparado às hediondas correntes presas à tratores, que lambem a mata e deixam nuas clareiras de centenas de metros de comprimento por dezenas de largura. Esse último é o método dos grandes fazendeiros, que não têm paciência nem interesse de esconder da Lei a transgressão. Não precisam, afinal.

 

Pelo método do pequeno produtor, a mata é deitada no chão e transformada em lenha ou carvão. No lugar, uma pequena roça nasce e frutifica, alimentando-o por algumas temporadas. Ano após ano, ele se dirige àquele local e refaz a semeadura, colhe, guarda sementes para o próximo plantio e vende o que não consome, ou troca pelo que não produz. É assim em pleno século XXI, em locais afastados dos grandes centros urbanos, onde o capitalismo ainda não conseguiu se enraizar e matar a cultura caipira ou transformá-la em objeto de consumo. Pessoas ainda trocam couro de boi curtido por sacas de milho, ou sacas de milho por sacas de arroz, ou sacas de arroz com casca por sacas de arroz sem casca (absurdo? O que você compra por uma nota preta – arroz integral – é trocado por uma quantidade menor de arroz limpo. A diferença fica por conta do trabalho da máquina "descascadeira").

 

Bem, isso ocorre ainda em locais como Tapiraí, Piedade ou Juquiá, cidades incrustadas no seio do que restou da Mata Atlântica. O processo de derrubada da mata é criminoso, como em qualquer outro lugar. Mas faz parte de uma cultura secular passada de geração a geração. Assim como a pesca e a caça de animais selvagens, igualmente ilegais. São as ferramentas do comércio de subsistência, que garante pouco mais do que a miséria a famílias com muitos filhos. A educação, mesmo capenga, é gratuita. A saúde, mais capenga ainda, também. Mas existe. E essa gente vive assim. Vive na terra, da terra e das palavras de uma bíblia da qual retiram explicações para entender o motivo de viverem assim e de não quererem ou conseguir mudar.

 

É esse o motivo de um homem, Alziro é o nome dele, morar em um barracão onde se armazena carvão, junto com sua mulher e uma "escadinha" de filhos. O dono do local e das terras onde Alziro mora e trabalha é homem rico. Explorando pessoas seus antepassados conseguiram juntar algum patrimônio. Curiosamente, esses antepassados eram aqueles pioneiros do desmatamento, que grilaram terras em áreas de Mata Atlântica e venderam desmatadas para pessoas de cidade que tentavam refrescar seus dias exaustivos passados em meio a paredões de concreto burocráticos. Curiosamente também, os antepassados de Alziro foram os homens que colocaram a mão no machado e derrubaram as matas das terras de seus patrões. Os patrões não desmatam mais. Os empregados sim.

 

Nesse processo ficam expostas algumas coisas: os filhos dos pioneiros evoluíram materialmente e se enfiaram em novos negócios. Os filhos dos empregados, ou continuam empregados dos filhos dos pioneiros, vivendo na miséria, ou se tornaram proprietários de terras, pequenas áreas com alguma área de plantio e alguma mata a ser derrubada, para sua subsistência. Para viver, eles continuam ilegalmente derrubando matas, comercializando em um modelo de capitalismo incipiente. São eles que vão parar em celas de delegacias por desmatamento.

 

Se alguém, alguma autoridade com um mínimo de interesse, quiser saber quem são os grandes caçadores e desmatadores, fica aqui exposto: são os filhos dos pioneiros, aqueles que se mudaram para as cidades grandes mas não se esqueceram das deliciosas caçadas em cidadezinhas interioranas. Aqueles que possuem as costas quentes, e cada vez mais aquecidas, pela bancada ruralista do Congresso Nacional, que garantem que plantar no centro-oeste do país não provoca desequilíbrio ambiental, já que a mata de lá é "capoeira". Ideologia pura: essa capoeira, que caipiras conhecem como sendo o resultado de matas secundárias, é vegetação do cerrado, a mesma que garante a absorção de água pelo subsolo e sem a qual as áreas de cerrado são condenadas a se transformarem em desertos. É o plantio de soja, em local que, sabe-se, é inadequado para essa ação; a soja cresce, mas com ela diminuem as reservas de água no subsolo. E o Ibama cala-se, sepucralmente.

 

Eis aí as entranhas da tragédia humana e ambiental. Tudo isso se passa longe de nosso conhecimento e interesse. Enquanto degustamos o salaminho das hediondas pocilgas mexicanas com o queijinho de soja que não engorda, assinando promissórias, puxando o saco do ricaço dono de fazendas e nos indignando com os caipiras ignorantes. Hipocrisia pura.

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