Em comemoração ao aniversário de Brasília

A origem do Mal
A transferência da capital nacional para Brasília distanciou a grande massa popular da possibilidade da ação política de fato. Foi o legado de JK.

É comum os olhos da grande imprensa se voltarem para o Distrito Federal. Essa partícula do território brasileiro deve ser a mais conhecida do cidadão comum, fora a área de seu próprio bairro. Isso porque é dali que emanam as principais ordens que orientam o caminhar político e econômico da nação brasileira. Conhecida do povo porque coberta diariamente pela TV; distante não só fisicamente, mas da própria realidade do Brasil.

O jornalista Samuel Wainer, fundador da revista Diretrizes e do jornal Última Hora, os três já falecidos, em seu livro de memórias, expõe as vísceras da corrupção que cimentou os alicerces de Brasília. “Minha razão de viver: memórias de um repórter” traz o relato de como eram feitas as maracutaias envolvendo o poder público e as empreiteiras para a construção do futuro complexo de prédios e vias do nosso Distrito Federal. Resumo da ópera: a corrupção não começou aí, mas foi aí que ela passou a ter, nas empreiteiras e outras grandes empresas, suas mais solidárias amantes.

O nascimento de Brasília foi viabilizado pelo pulso forte de Juscelino Kubitschek, presidente da República entre  1956 e 1961. O projeto da construção da capital federal objetivava, dizem historiadores, o desenvolvimento do interior do Brasil. O notável salto econômico do país na gestão JK trouxe marcas profundas, que ainda ardem em nossa carne. O polêmico crescimento da dívida brasileira foi uma de suas conseqüências. A outra foi levar para longe dos grandes centros urbanos o comando da nação.

O brasileiro se sujeitaria a contemplar, inerte, os escândalos de corrupção que pipocam, volta e meia, no DF, caso a capital nacional fosse um grande centro urbano? Os estudantes de Brasília, quando estourou o escândalo dos “Panetones do Arruda” deram provas de que o brasileiro está cansado e consciente da corrupção que assombra o Brasil. Na ocasião, foram duramente reprimidos em suas manifestações, mas mostraram a alma de um povo indignado. A distante Brasília vive dias tumultuados, mas longe da grande massa exigindo a limpeza de toda a lama.

“A origem do mal foi sempre um abismo de que ninguém conseguiu lobrigar a fundo. Tifão era o princípio do mal entre os egípcios, Arimã entre os persas”. Assim disse o crítico Voltaire. Qual a origem do Mal no Brasil? Em primeiro lugar, a estrutura política que se mostra amplo campo para toda sorte de picaretagens. Depois, a falta de estrutura educacional que forme uma consciência cidadã no povo, voltada para o “agir de fato”.

Nas eleições de 2010, convém que o cidadão brasileiro tome as rédeas de sua cidadania, e escolha os políticos que mostram, em sua história e não somente no discurso, o combate ao “Mal brasileiro”.

Texto originalmente publicado na revista boituvense Outdoor Regional, em março de 2010.

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