Muro de Berlim: 20 anos depois

As separações simplistas e dicotômicas de mundo ruíram após a queda do Muro. E parece ser cada vez mais difícil distinguir claramente entre esquerda e direita

O mundo não é mais tão pragmático quanto foi um dia, ao menos em se tratando de política e de Brasil. O vermelho e o azul, que um dia significaram posições ideológicas e políticas bem definidas e claras o bastante para não se misturarem, estão, cada vez mais, embolados em um novelo sem fim, mas com milhares de pontas. O comunismo era o inimigo a ser batido pela outra face da terra, que havia optado pelo capitalismo. Fácil assim, ao menos superficialmente, deixando ocultas as atrocidades que subjaziam a ambos os regimes.

O mundo comemorou na segunda-feira 9 de novembro, 20 anos da queda do Muro de Berlim. De certa forma, com ele caíram muitas barreiras responsáveis por separar o vermelho comunista ou socialista da União Soviética, do azul do capitalismo, encabeçado pelos Estados Unidos da América. Essa separação dicotômica e simplista, que parecia equacionar racionalmente os dramas políticos mundiais, não pode mais ser utilizada hoje.

O Muro de Berlim, construído pela Alemanha Oriental durante a Guerra Fria, separava a “República Federal da Alemanha” e a “República Democrática Alemã”, esta compondo o bloco dos simpatizantes do socialismo, aquela, o dos simpatizantes do capitalismo. De alguma forma, toda a tônica das disputas políticas, em diversas partes do globo, partia desta divisão. No mundo pré-queda do Muro, os partidos políticos brasileiros pareciam optar por um lado bem definido. Depois do chamado “fracasso do socialismo real” e da derrocada do pensamento neoliberal, com o advento da crise econômica mundial, as coisas se complicaram. Qual regime deve ser seguido agora? Que marco ou escola de pensamento político deve ser tomado como guia?

Os partidos políticos brasileiros, cada vez mais, perdem suas identidades originais, e seus políticos caminham por ruas antes impensáveis. Aqui, dois partidos tem grande projeção, tentando simbolizar pólos políticos opostos: PT (esquerda) e PSDB (direita). Novamente, a divisão é simplista. O próprio Partido dos Trabalhadores se modificou durante os anos, assim como o PSDB. O primeiro nasceu como esquerda radical. O Segundo, como centro-esquerda. Ao que parece, houve um deslocamento nessas posições, e o PSDB migrou para uma direita em construção, enquanto o PT para uma esquerda bem mais moderada.

Sob discursos de que não há mais diferença entre os partidos e que, por isso, não faz sentido a distinção de esquerda e direita, deve surgir um novo tipo de político, capaz de conciliar sua posição ideológica e política, em um tempo em que elas estão cada vez mais dissonantes: encontra-se esquerdistas em partidos de ultra-direita, e direitistas em partidos de ultra-esquerda.

Eleger um político tornou-se a arte de enxergar muito além das aparências. Ainda faz todo o sentido a separação entre esquerda e direita, que é muito mais profunda do que as dicotomias partidárias se pretendem. Mas cabe à consciência política do cidadão escolher.

Texto publicado na revista Outdoor Regional de 09/11/2009

Comentários

Mar ao Leste é o caminho marítimo mais seguro para todas as informações culturais. Idealizado e comandado pelo jornalista e mestre em marketing político, André Canevalle Rezende, Mar ao Leste é o melhor da informação virtual. Excelente a matéria sobre os 20 anos da Queda do Muro de Berlim. Politicamente correta.

Postagens mais visitadas deste blog

A relação entre arte e filosofia

O mito da caverna interpretado por Marilena Chauí

A mão amada