“Não tenho medo da morte”

O político mineiro José Alencar teve uma curta, mas intensa, carreira política. O suficiente para mostrar que pode haver fidelidade à moral nesse campo
“Temam menos a morte e mais a vida insuficiente”. Esta frase de Bertolt Brecht pode representar, magnificamente, a trajetória de homem público do ex-vice-presidente do Brasil, José Alencar Gomes da Silva. Nascido em 17 de outubro de 1931, deixou a família quando tinha 14 anos para assumir um emprego no município de Muiaré, Minas Gerais.
Filho de um pequeno comerciante mineiro, foi emancipado pelo pai aos 18 anos, quando a maioridade civil ocorria aos 21 e, corajosamente, abriu uma loja na cidade de Caratinga. Esse era o início da carreira de um dos maiores empresários brasileiros, cuja curta carreira política foi tão intensa que marcou profundamente o cenário do poder de Brasília e demonstrou a existência de vida moral neste campo tão carente de moralidade.
Na campanha presidencial de 2002, José Alencar aceitou assumir o posto de vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. A vitória nas eleições daquele ano demonstrou uma estratégia política certeira: contrabalancear a imagem do candidato operário com a imagem do empresário de sucesso do ramo têxtil, cujo conglomerado empresarial arrecada cerca de U$ 2,4 bilhões de dólares ao ano. O casamento do capital com o trabalho, cantavam em verso e prosa.
A composição da chapa deixou o setor empresarial mais tranquilo diante da imagem do ex-sindicalista de discursos extremistas de anos atrás, que produziam verdadeiras visões do inferno ou, no mínimo, do Armagedom, nos cidadãos mais conservadores e políticos mais demagogos.
A entrada na cena política do ex-vice presidente, começa de fato em 1994, quando se candidata a governador de Minas Gerais, perdendo o pleito eletivo para o tucano Eduardo Azeredo. Já em 1998, pelo PMDB, candidata-se a senador, atingindo a marca de quase 3 milhões de votos. Em 2001 transfere-se para o PL, um ano mais tarde chegando à vice-presidência.
Nesse posto, Alencar representou um ponto forte onde Lula se amparou diversas vezes. Aliás, o político mineiro representava o braço forte do presidente, confiável a ponto de ter assumido a presidência na ausência de Lula poder dezenas de meses.
Alencar foi um ardoroso defensor da diminuição dos juros, e suas posições nacionalistas foram reconhecidas por todos os escalões do governo. Seu posicionamento contrário diante da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), ecoou por todos os cantos do país. À frente do Ministério da Defesa, o político mineiro restaurou o respeito dos militares em 2004.
A vida política de Alencar foi curta, mas intensa o bastante para torná-lo ícone de como se pode fazer política de forma leal aos princípios da moralidade. Ele morreu em São Paulo aos 79 anos, após 13 anos de luta contra um câncer na região abdominal. Dizia: Não tenho medo da morte, mas da desonra.

Texto publicado na revista Outdoor Regional de 31/03/2011

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