O caldeirão do mundo árabe

A derrubada de diversos governos ditatoriais, que outrora contaram com a complacência do Ocidente, abre um vazio político que pode ser ocupado por regimes religiosos extremistas

O mundo árabe, que já era um barril de pólvora, está pegando fogo. A questão que se coloca é: até onde as consequencias dessas explosões podem chegar? As revoltas em vários países que há décadas vivem sob a batuta perversa de ditadores, tem origem inegavelmente popular. Uma frase que se tornou emblemática mostra bem isso: “só queremos viver como seres humanos”. Fato é que a pressão exercida por governos autoritários sobre seus povos atingiu o ápice, provocando reações inesperadas em se tratando de mundo árabe.

Estará se desenhando uma nova geografia política? Bem, fato é que, com a queda (ou derrubada) desses governos autoritários, alguma força política deverá ocupar o lugar agora vazio. Quem será essa força? Bem... as ações de imposição de democracia de um país sobre o outro já se mostraram ineficazes, como no caso do desastrado George W. Bush em relação ao Iraque.

O governo de Barack Obama, diante dos horrores e assassinatos de civis produzidos pela insanidade do ditador líbio Muammar Gaddafi, sugeriu ao mundo uma ação conjunta contra a Líbia, que ia desde sansões unilaterais até ações conjuntas com outras nações. Isso, obviamente, tem a capacidade de enfraquecer um governo, mas jamais de instaurar um processo democrático ou algo semelhante.

O mundo árabe traz fortíssimas relações com o islã. A possibilidade de ascensão ao poder de grupos teocráticos aumenta consideravelmente nessas circunstâncias: os agrupamentos humanos têm horror ao vazio político, e não há um líder guiando as massas em nenhum desses países. Por outro lado, sempre há alguém à espreita do momento oportuno para tomar de assalto o comando de uma nação sem comandante.

Enquanto a Europa teme a chegada de até 1,5 milhão de imigrantes ilegais ao continente, por causa das revoltas, os Estados Unidos temem perder o apoio de alguns dos países do mundo árabe, em especial o Egito e a Jordânia, para regimes religiosos extremistas, como aconteceu em relação ao Irã. Vale lembrar que esses dois países, que passam por intensas modificações de ordem política, são os únicos aliados de Israel (principal aliado dos EUA no Oriente Médio) entre os 22 países da Liga Árabe.

Para manter a relativa tranquilidade do Ocidente em relação aos governos árabes, as revoltas populares devem ser acompanhadas de perto. A questão que fica é: como agirão os governos do Ocidente, em especial os EUA e a Europa, em relação a possíveis (e até prováveis) ascensões de grupos teocráticos ao poder no mundo árabe? A atual defesa (frágil e atrasada) dos direitos humanos não será suficiente para garantir que os novos governos que se constituam sejam “populares” de fato e, em qualquer caso, não-extremistas. Essa é uma equação a ser resolvida. Mas dificilmente o será pela via diplomática e, menos ainda, democrática.

Texto publicado na revista Outdoor Regional de 24/02/2011

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