Palocci na corda bamba

O futuro do Ministro da Casa Civil e homem forte de Lula ainda é incerto. Explicações coerentes sobre seu enriquecimento não desfazem a urgência de uma reforma política.

O ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, braço forte do PT dentro da equipe de governo da Presidente Dilma Rousseff, está na mira da Procuradoria Geral da República, que ainda não determinou, definitivamente, se abre ou não um inquérito contra ele, e da oposição que, ainda desorientada, tenta fazer das denúncias de enriquecimento do ex-deputado um manancial de lodo para desestabilizar o governo federal.

Segundo denúncias da imprensa, o ministro teria enriquecido ainda como deputado, a ponto de conseguir comprar um apartamento de R$ 6 milhões de reais. O enriquecimento rápido de Palocci, de qualquer forma ainda não explicada (ao menos de maneira aceitável) levou o popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a classificá-lo, à guisa de defesa, de “Pelé da economia”.

Pesam sobre os ombros do homem forte do governo Dilma a acusação de utilizar-se de empresa de consultoria empresarial como fachada para defender interesses privados ante órgãos públicos, ou seja, tráfico de influência. Em outras palavras, enriqueceu utilizando-se de um viés criminoso.

Em entrevista ao Jornal Nacional, expondo-se perante toda a opinião pública, Palocci foi categórico: “Não fiz tráfico de influência, não fiz atuação junto a empresas públicas representando empresas privadas”. O ministro preferiu dirigir-se diretamente à população à participar de um “massacre circense” no Congresso Nacional, entre seus “pares” eleitos e representantes do povo à quem Palocci pronunciou-se.

Dentre os clientes que o ministro afirma que tem, sempre evitando nominá-los, dizendo que “poderiam ser vítimas dos adversários do governo Dilma”, estão bancos, fundos de investimento, indústrias de áreas diversas e serviços em geral. “É um conjunto de empresas que pouco tem a ver, por exemplo, com obras públicas, com investimentos públicos. São empresas que vivem da iniciativa privada e que consideraram útil o fato de eu ter sido ministro da Fazenda, de ter acumulado uma experiência na área econômica”, declarou.

Palocci também afirmou que o alto faturamento de sua empresa no final de 2010 devia-se a pagamentos a prazo que clientes tiveram de liquidar de uma só vez, para que ele encerrasse suas atividades de consultor e ingressasse no governo. Fato é que Palocci coordenou a campanha de Dilma Rousseff, e a oposição tenta fazer a ligação de seu alto rendimento (cerca de R$ 20 milhões no ano passado) à arrecadação de campanha. Novamente, o ministro nega.

O calo está apertando de fato com a base aliada da presidente Dilma, cujos parlamentares cobram explicações lógicas e coerentes. E é justamente da posição dos aliados que depende o futuro de Palocci. Diferente de Lula, Dilma não colocou a mão no fogo por seu ministro, que vem se enfraquecendo, numa demonstração de que está disposta a amputá-lo de sua equipe, caso circunstâncias políticas a empurrem para isso. O caso não chega a ser uma “crise de governo”, mas faz ressurgir a pergunta: “interessa, aos políticos, a reforma política?”. Se sim, por qual razão ainda não foi feita? A resposta mais óbvia é um retumbante não.

Texto publicado na revista Outdoor Regional de 06/06/2011

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