Política e Religião pós-25/12

Comemorar o dia no nascimento de Jesus Cristo é, de alguma forma, comemorar a fusão da política com a religião. Por mais estranho que pareça...

Em toda a história da humanidade, homens evocaram o “divino” para demonstrar que possuíam caráter, força e sabedoria; que, além de humildade (qualidade elogiada no ocidente cristão), possuíam atributos que os faziam ser aceitos (quando não “escolhidos”), pela divindade “protetora” do povo. Esse artifício continua rendendo frutos. No Ocidente, ser devoto de um santo, ou seguidor de Jesus Cristo, é essencial para que o político tenha aceitação popular.

Veja uma atitude tipicamente política: a data do nascimento de Jesus é uma incógnita. A Bíblia não traz elementos para estabelecer corretamente esse dia (25 de dezembro sequer é unanimidade entre as religiões cristãs). Estudos indicam que a instituição do Natal no dia 25 foi uma imposição sacerdotal para apagar rituais pagãos da memória popular. Outras datas comemorativas do calendário cristão foram instituídas pelo mesmo motivo.

Quando o cristianismo tornou-se religião oficial do Império Romano, o príncipe investiu-se de novos poderes. Sua sacralização não tardou, e transferiu para si os poderes que cabiam ao Senado e ao Povo Romano. Paolo Colliva observa que Carlos Magno, primeiro imperador do Sacro Império Romano, reinou com os poderes majestáticos e absolutos, de “origem divina”. Sua coroação se deu pelas mãos do Papa Leão III, no Natal do ano 800 (ou 799), fundindo o conceito de imperialidade romana com a dominação barbárica, reinaugurando o título de “Imperador” no Ocidente. Um caldo grosso envolvendo política de Estado e religião, que ditou o futuro da Europa de então.

A Bíblia e o Direito Romano foram o pote de onde idéias foram fartamente sorvidas por teólogos para formularem teorias políticas, quadro modificado somente com as ideias de Nicolau Maquiavel (referência obrigatória do pensamento político moderno), que inauguravam um novo modelo de pensamento político, rechaçando fundamentos anteriores e exteriores à política (Natureza, Deus).

A lei e, por conseqüência, a legalidade, ditam, grosso modo, o “certo” e o “errado”. A filósofa Marilena Chauí nota que a legalidade é algo tão profundo que, com o advento do cristianismo, passou-se a falar na Antiga Lei (a aliança de Deus com o povo, prometida a Noé, Abraão e dada a Moisés) e na Nova Lei (a nova aliança de Deus com o povo, através do messias Jesus)”.

Voltaire (1697-1778) diz em seu “Dicionário Filosófico”: “A religião cristã funda-se na queda dos anjos. Um diabo transfigurado em serpente tentou Eva e desgraçou o gênero humano. Jesus veio resgatar os homens e vencer o diabo, que ainda nos tenta”.

Não há terrenos onde a fertilidade mental deposite mais sementes de tentação do que a política e a religião. E parece ser tão difícil ao homem cumprir os “desejos divinos” presentes tanto em uma quanto em outra. Parece estranho, mas o 25 de dezembro é, de alguma forma, a fusão da política com a religião.

Texto publicado na revista Outdoor Regional de  05/12/2009

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