Cai Jobim: entranhas à mostra


A certeira demissão de um dos melhores ministros de Estado põe às mostras a putrefata estrutura política nacional. Mudanças? Nem pensar.

Nelson Jobim caiu. Mais um dos ministros de Estado da Presidente da República, Dilma Rousseff, deixa de comandar a pasta e é posto de escanteio. Diferentemente de outros membros do Governo Federal, Jobim caiu por ter uma língua que não consegue guardar silenciosa, e não por corrupção, desvios de caráter e etceteras afora que ornam de lama a imagem do mandato petista.

 Jobim foi, sem dúvida, um dos melhores ministros de Estado do Governo Lula, e vinha sendo um dos pilares mais firmes da alta administração pública federal. Mas jamais se alinhou ao lulismo, petismo ou qualquer outro “ismo” da estrela vermelha. Ao contrário, sempre manteve-se alinhado às suas convicções “demotucanas” de República. Ao ponto de declarar, de público, que votara em José Serra, cuja imagem alinha-se a um projeto político diverso do da atual mandatária nacional.

São duas camadas agindo na administração: a política, com um Lula atuante, e a técnica, pela qual responde Dilma Rousseff.

Dilma novamente mostrou um pulso dirigido para o pragmatismo, levando Jobim a pedir demissão (se não pedisse, seria demitido por ser um ministro falastrão e não-alinhado). Esse mesmo pulso que vem derretendo, sistematicamente (impulsionado – coagido, quase – por denúncias de corrupção envolvendo personalidades políticas próximas) o quadro de apadrinhamento descarado e montagem de cabides de emprego para aliados que Lula montou para manter a governabilidade.

Cargos que deveriam ser ocupados por técnicos com excelência, vinham abrigando políticos corruptos e, em última instância, essencialmente incompetentes. Tudo em nome de uma governabilidade mantida à custa de uma excepcional competência política de Lula, que fazia malabarismos para aliados manterem-se aliados, para azar da República, dos cofres públicos e felicidade do que há de pior e mais trágico no sistema político nacional.

O problema é estrutural. De um lado, encontra-se o governo pseudo esquerdista de Lula e Dilma, do outro, uma oposição pseudo democrática e essencialmente incompetente. No meio, aqueles que alinham-se com qualquer um dos dois, desde que o mantenham no poder. Lula costurou uma colcha de retalhos, e vem dando a devida manutenção política a ela, como tutor de Dilma. Enquanto isso, a Presidente vem mostrando suas qualidades administrativas e, de qualquer forma, uma competência conhecida mesmo pela oposição e reconhecida pelo setor empresarial e público.

São duas camadas agindo na administração: a política, com um Lula atuante, e a técnica, pela qual responde Dilma Rousseff. De fora dela, permanece a oposição demotucana incapaz de promover novos ares políticos, pelos quais anseia a sociedade brasileira, mantendo o caciquismo falido como motor propulsor. Também fora dela permanece a desorientada ultraesquerda nacional, e aqueles que, como Marina Silva, pensam representar o novo mas, na verdade, vestem múmias com camisas novas.

Se o Brasil quer mudar, precisa fiar-se por uma política mais técnica. Mas só conseguirá isso nas fileiras de movimentos independentes, e não com o atual quadro que sobreviveu a tudo e a todos. Até agora...

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