A responsabilidade da promessa eleitoral


Enquanto milhares de candidatos pelo Brasil mostram suas promessas de governo, os marqueteiros trabalham furiosamente na produção de balões de ensaio jogados ao povo, que fará disso uma festa de criança ou um compromisso de quadriênio.

As tevês, rádios, muros e ruas foram tomados nos últimos meses pela avalanche de propagandas políticas, em vários formatos e veículos. Os municípios brasileiros estão em processo eleitoral, movimentando a máquina do marketing que se esforça por mergulhar em mel as palavras dos candidatos, ao mesmo tempo em que trabalha desesperadamente para esconder seus esqueletos no armário. Nesse movimento, a retórica, não raro, se descola completamente da realidade e alça voos muito mais altos do que o permitido pela razão humana, e é uma arma poderosa e sempre presente.

O movimento - O marketing tem predominado sobre qualquer outro elemento da política. Desde a eleição de Fernando Collor para a Presidência da República, e 1989, o marketing político tem sido usado no Brasil com tamanha ferocidade que é tido, hoje, como o principal elemento do jogo eleitoral.
O drama humano passa a ser visto como arma pelos adversários, enquanto os feitos do partido da “situação”, por menores que sejam, são louvados em sua propaganda política como sendo a salvação da existência humana.
Com ele, tudo passa a ser possível: uma cidade comandada há décadas pela mesma legenda partidária, com milhares de problemas insolúveis, arrastados por anos a fio, se depara com propostas de solução e promessas juradas sobre a Bíblia Sagrada. Engraçado que essas propostas comumente são feitas pela mesma legenda que se mostrou incompetente na solução dos problemas agora “solucionados”.

O engodo - Claro, óbvio até, que se trata de engodo eleitoral. Uma peça de marketing pensada por marqueteiros no conforto de suas poltronas. O drama humano passa a ser visto como arma pelos adversários, enquanto os feitos do partido da “situação”, por menores que sejam, são louvados em sua propaganda política como sendo a salvação da existência humana. Hipocrisia tingida de verdade absoluta.

A solução - Contra esse movimento draconiano, que torna o ser humano um objeto que vota, e não um sujeito que pensa, a única arma é a memória, muito mais do que o voto. Cabe a memória o papel de guardiã da civilização, da democracia e da cidadania. Vote em quem votar, exija o cumprimento de todas as propostas feitas pelo candidato vencedor (mesmo que você tenha votado no adversário), dentro dos próximos quatro ano.
Não aceite desculpas, como falta de dinheiro ou má administração do gestor anterior: se o vencedor fez a promessa, a fez sob o manto sagrado do processo eleitoral democrático, e tem, portanto, a responsabilidade de cumpri-la. Se não cumprir, terá se demonstrado, cabalmente e sem desculpas, um irresponsável e incompetente. A beleza do movimento eleitoral democrático, banhado no marketing, está nisso: enquanto o marketing dá asas à imaginação humana, fornece armas ao cidadão. O marketing promete soluções. O cidadão tem que cobrá-las.

O preço do voto - Se antes o voto era comprado com dentaduras e meio quilo de feijão, hoje ele é conquistado com promessas. E essas devem ser cobradas, sempre, em toda ocasião, a qualquer tempo, de quem quer seja o eleito e tenha feito a promessa: não é porque você não votou em fulano que você não pode exigir que ele cumpra tal ou qual promessa que tenha feito. Esse é um artifício muito usado pelo eleito: dizer que, se você votou no adversário dele, não tem que cobrar dele o que quer que seja. Guarde consigo os materiais de campanha e cobre dos eleitos o cumprimento das promessas que eles fizeram em seus materiais. Eles governam para todos, e não somente para seus eleitores.

Números – Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o número de eleitores aptos a votar em 2012 cresceu 6% em relação às eleições de 2008: 138.544.348 eleitores aptos, conforme dados consolidados após o alistamento eleitoral. Em 2008, eram 130.604.430 aptos a votar. Segundo o TSE, as mulheres somam quase 52% dos 140 milhões de eleitores brasileiros – elas são 72.877.463 contra 67.382.594 eleitores do sexo masculino.


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