Reflexões sobre a Indústria Cultural

Indústria cultural é o sistema de produção e distribuição de bens culturais reduzidos à categoria de mercadorias padronizadas, desenvolvidas para atender aos interesses dos consumidores, buscando neutralizar as diferenças entre as classes sociais, ao mesmo tempo em que visa à dominação da classe economicamente mais abastada (e proprietária dos bens de produção e circulação) sobre a classe menos favorecida. 

A Indústria Cultural busca produzir e distribuir “mercadorias culturais”, como revistas, livros, filmes e programas de rádio e TV, visando a orientar e dominar o consumidor. O objetivo da Indústria Cultural é transformar o sujeito independente em sujeito dominado, em consumidor. Através do processo de mecanização implantado pela Indústria Cultural, consegue-se o barateamento dos produtos e a possibilidade de aquisição por quinhões cada vez maiores da sociedade. 

A Indústria cultural inseriu a arte na indústria capitalista, com produção em série de artigos de arte, sua comercialização sempre visando ao lucro. As obras de arte são reduzidas ao nível de mercadorias, e perdem sua autonomia enquanto obras de arte. O próprio sujeito criador das obras acaba sendo levado a deixar de lado a espontaneidade de sua criação para atender aos interesses mercadológicos da Indústria Cultural. Há a dessacralização da obra de arte nesse processo.

A discussão sobre como a Indústria Cultural afeta nossa experiência pessoal e individual com a arte é vasta e engloba diferentes aspectos. A Indústria Cultura produz e distribui a imensa maioria dos elementos culturais a que temos acesso, vide, por exemplo, desde revistas sobre fofoca de celebridades até revistas ultra-especializadas em obras de arte. Muitas dessas mesmas celebridades são produtoras de “elementos culturais”, como músicas, ou protagonistas de séries de TV que retratam pedaços de nossa história enquanto país. 

Ou seja, os bens produzidos pela Indústria Cultural - em que pese serem criados para atender aos interesses da massa, o que os faz, naturalmente, serem criados com nível de profundidade bastante raso – têm o seu valor enquanto arte. É aceitável a perspectiva de Adorno e Horkeimer sobre a criação de bens culturais com o objetivo de orientar e dominar o consumidor desses bens, na medida em que são produzidos sob o interesse de uma classe que quer se manter dominante.

Mas vejamos, por exemplo, a imensa maioria dos quadros de grandes pintores da idade média. Não é incomum vermos uma obra de arte dessas exposta em um restaurante de segunda categoria. É claro que não é a original, mas uma cópia dela. Se não fosse por meio dessa cópia, talvez o sujeito jamais tivesse condições de tomar conhecimento da obra desse pintor.

A música é outro elemento importante. Não é todo mundo que poderia ter uma orquestra sinfônica em sua sala de estar para tocar Chopin quando desse vontade de ouvir “Nocturne”, por exemplo. Há a necessidade de portar essa música em mídias que só são uma cópia, e não o original.

A questão do cinema enquanto obra de arte é outro assunto importante a se tratar. Quando se produz um filme, por exemplo, considerado obra de arte, ele só tem sentido em sendo uma cópia. E uma dentre centenas de milhares de cópias. Como debater a reprodubilidade técnica considerando o cinema como arte? O que seria original e o que seria cópia?

Enfim, nossa experiência com a arte é profundamente marcada (e diria até filtrada) pela Indústria Cultural. É difícil hoje termos contato com obras de arte em seu estado puro, original, e até mesmo é difícil termos contato com obras de arte que sejam criadas à luz da alta cultura. Em geral, as obras com que temos contato já são obras que já despertaram o interesse da Indústria Cultural e foram por ela abarcadas.

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