A metamorfose humana

Reflexões

A maior riqueza do homem é sua incompletude! Essa frase de Manoel de Barros (1916-2014) traz em si uma aparente contradição: como pode a maior riqueza ser uma necessidade (carência!) de completar-se? A riqueza não deveria ser, justamente, a completude, ou seja, tornar-se completo em todos os sentidos, em todas as frentes de batalha (trabalho, relacionamento etc)?

Para o poeta cuiabano, sensível e decerto descolado do atual estado de coisas mundano (ou seja, conquistar o que queremos e satisfazer nossos desejos, de forma imediata), a resposta é um retumbante não.

A riqueza da incompletude está justamente na busca por completar-se, constantemente, imparavelmente, o que leva necessariamente a duas possibilidades: a frustração da derrota ou o gozo da vitória. Em qualquer dos casos, é o desejo humano por buscar tornar-se totalmente íntegro, de si e das coisas ao redor (que tornam-se parte dele também), que agem no íntimo do homem e formam sua força motriz.

A possibilidade de completar-se, segundo Manoel de Barros, traz como consequência para o homem, essencialmente, a perda da sua maior riqueza (que é a busca constante pela completude). Ora, atingindo a totalidade de si e das coisas ao redor, o que sobrará para motivar o homem a agir, o que o impulsionará?

A resposta é trágica: houvesse a possibilidade do homem erguer-se e tornar-se total, ele pararia. Porque não haveria mais nada a conquistar. E qual seria, então, o sentido de existir? Manter-se pleno de si e de tudo o que o cerca? Divagando mais: teria sido esse o problema com qual se deparou Deus, quando resolveu “criar”?

É esse o raciocínio que guia as palavras de Manoel de Barros, quando faz sua perigosa afirmação. “Perdoai, Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”, continua o poeta.

Aqui temos uma nova e perigosa afirmação: não bastasse o homem ser incompleto e ter nisso a sua maior riqueza, ele ainda precisa ser reinventado. E usando um ser que, na escala evolutiva, estaria abaixo dele.

Obviamente, Manoel quer trazer o homem de volta à natureza, ao seu nascedouro original, desatrelando dela as rédeas da “civilização”, que barbariza o homem ao torná-lo um cão adestrado, que perde sua liberdade criadora. O fato de o homem não ser completo, possibilita que ele se reinvente. E aí está, novamente, a riqueza: tornar-se outro, mais outro, e outro ainda.

No fim das contas, quem consegue ser pleno e total (um deus?) acaba calcificado, petrificado, enrijecido. Não quer mudar e prefere viver para sempre como “ele próprio”. Bem, nesse caso, a história nos dá as múmias como exemplo de seres que preferiram a não-mudança. Inspirador?

André Canevalle Rezende - jornalista e filósofo

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