Eu, você, ninguém...

Não, não sei dizer o que queres ouvir;
Em palavras doces de angelical encanto.
Mas posso muito lhe contar em pranto,
De sombras humanas, e de nosso porvir.
Da carne que a túnica dourada esconde,
Mas que perdeu a vida, não se sabe quando, nem onde.

Se perguntares o que sobrou de nós,
Sabes que não falarei de amor.
Posso falar de infortúnios e dor,
Enquanto enlouqueces por estarmos sós.
Por sermos dois peitos calados,
Chagas abertas, dilacerados.

Se insistires em saber o que somos agora,
Posso buscar nossas histórias,
Remexer nossas memórias,
Dos anos passados até esta hora.
És a que não crê, sou o que não ama.
Éramos o campo em flor, hoje somos a lama.

Somos qualquer um, indiferentemente
Qualquer humano, velho, criança.
Vivendo do gotejar da esperança;
De uma verdade que nos mente.
De um passado que nos cega,
De uma morte que não chega.

Sou o que jamais construí;
És a melodia que jamais compuseste;
És a semente que não será cipreste;
Sou a certeza de que, tentando viver, em vida morri.
Sou e és, enfim, o que nunca fomos,
Sou eu, és tu, não somos.

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